                 O MITO E A REALIDADE

Albert Camus


Entre as maiores manifestaes da conscincia crtica neste sculo,
a presena de Camus  certamente uma das mais generosas.
Sobretudo agora, no final do milnio, quando tantas das suas
reflexes podem ser redescobertas como advertncias ou
"diagnsticos" de espantosa acuidade e rigor intelectual. No h
como duvidar de que o homem dos nossos dias tem tudo para
abrigar conflitos ainda mais intensos - e mais devastadores, ou mais
fecundos - que os de todas as outras pocas.  certo que ele
contou com enormes precursores, mestres que foram ao fundo do
desenvolvimento moderno de suas emoes - e suas razes - como
Nietzsche, Dostoivski, Proust, Kierkegaard, Kafka (para s
ficarmos em alguns dos nomes mais caros a Camus), e chega, hoje
em dia, aos desdobramentos efetivos e consistentes das revolues
de Darwin, Marx, Freud, Einstein. Mas, at mesmo por isso tudo,
"os homens presentes", n' "a vida presente", esto ainda mais ss e
dilacerados. H uma busca desesperada - mas persistente - de
novos valores. Como toda possibilidade dos sistemas mgicos ou
metafsicos se encontra pulverizada, como s insiste ou resmunga
nos desvos do medo, nos laboratrios da psicopatologia ou em
sinistros desvios de igreja e dissimulao, esse homem presente s
pode contar consigo mesmo, seu crebro, seus sentidos, suas
mos, seus meios. Da o encontro - cada vez mais freqente - com
o absurdo. E face a face com a sua condio, esse homem tem
muito poucos amigos. Um deles, de extraordinria inteligncia e
lealdade,  Albert Camus.
Particularmente neste caso de O mito de Ssifo, livro de terrvel
beleza com a sua aguda apreenso do horror nas armadilhas do
cotidiano, seu reforo ao inconformismo e  recusa a todas as
fugas, seu empenho intransigente em valorizar e enriquecer as lutas
da lucidez. Camus o escreveu no comeo da Segunda Guerra
Mundial.  extremamente curioso - mas de toda coerncia com o
seu pensamento - que ele no se detenha no problema da guerra e
a rejeite radicalmente nas entrelinhas, fazendo do "homem absurdo"
o ltimo a poder aceit-la a compactuar com as suas aberraes.
Quem coloca em primeiro plano a revolta, o discernimento, a
discusso da morte voluntria, a oposio s esperas e esperanas
infundadas, a realidade fsica ou a repulsa a qualquer tipo de
servido     est   plasmando      indiretamente  a   atitude  do
antiautoritarismo e, em conseqncia, propondo uma paz
insubmissa, guiada ao mesmo tempo pela razo e pela paixo
amorosa (especialmente em seus "modelos" do "homem absurdo" -
quando trata de Don Juan, dos comediantes e dos conquistadores).
Mesmo neste ltimo caso, mobilizado como todo o mundo, o filsofo
passa a opo pela luta e pela resistncia, mas tambm o desprezo
pela guerra e seus ingredientes: "A grandeza mudou de campo. Ela
est no protesto e no sacrifcio sem futuro".
Mais especificamente, Le mythe de Sisyphe (1942) - que, no
vamos esquecer, o autor publicou aos vinte e nove anos -  a
primeira formulao terica da noo de absurdidade, isto , da
tomada de conscincia, pelo ser humano, da falta de sentido (ou,
portanto, do sentido absurdo) da sua condio. Situando a questo
nos planos da sensibilidade e da inteligncia, Camus trabalha com
designaes que muitas vezes se confundem, na base de estmulo
e resposta assumidos com o mesmo nome. Assim, o "homem
absurdo"  o que enfrenta lucidamente a condio - e a humanidade
- absurda. Antecedido intuitiva e literariamente (como reconhece e
aplaude no ltimo ensaio do livro) pelo gnio de Franz Kafka,
Camus  o primeiro a descrever objetivamente as situaes e
conseqncias da absurdidade, compreendendo a sua lgica e
propondo a sua moral.
De l para c, ao mesmo tempo em que o "homem absurdo" se
exprimiu em toda a sua verdade na literatura, no teatro e em outros
campos ou vertentes da arte e do pensamento (de Jorge Luis
Borges  dramaturgia de autores como Beckett, Ionesco, Genet,
Pinter, Albee, Arrabal - e tantos escritores contemporneos) a
absurdidade do humano se estendeu, fez metstases por toda
parte, prosperou. Como, nos seus rumos polticos, o autoritarismo j
no anda de braadeiras ou susticas s claras, a humanidade
absurda tambm adotou disfarces e novos colarinhos para as
respectivas coleiras. Os esquemas burocrticos de falso
paternalismo e servido so estreis, mas afanosa vaidade de
hierarquias inteiras que superpem andrides s voltas com
obrigaes e incumbncias inteis nos mostram hoje como viu
longe a atividade crtica e criativa de homens em corpo inteiro como
Franz Kafka (muitas vezes chamado "profeta do absurdo") e Albert
Camus - inclusive em suas obras posteriores, principalmente La
peste (1947) e L'homme revolt (1951). Por todos esses motivos, a
atualidade e oportunidade de O mito de Ssifo so absolutamente
exemplares. Esto aqui os antdotos certos, a palavra certa para
uma rara humanidade que ainda merece continuar a se distinguir
dos insetos e dos ratos. Como se depreende do ensaio-ttulo deste
livro, pode at rolar a pedra at o alto da montanha, de onde ela
desce de novo: desde que, nos intervalos, se mantenha e se renove
a conscincia do processo. A grande maioria, no entanto, j prefere
naqueles momentos to-somente rolar tambm de volta, ladeira
abaixo. E j consegue chegar um pouco antes da pedra.
                                                      Mauro Gama
         INTRODUO  EDIO ORIGINAL

"Fui posto a meio caminho entre a misria e o sol", escreve Albert
Camus em O avesso e o direito. Ele nasceu numa propriedade de
vinicultura perto de Mondovi, no departamento de Constantina, na
Arglia. Seu pai foi mortalmente ferido na batalha do Marne em
1914. Uma infncia miservel em Argel, um preceptor, o Sr.
Germain, depois um professor, Jean Grenier, que sabem
reconhecer-lhe os dons, a tuberculose, que se manifesta
precocemente e que, com o sentimento trgico que ele denomina
absurdo, lhe d um desesperado desejo de viver: eis os dados que
iro forjar sua personalidade. Escreve, torna-se jornalista, anima
grupos teatrais e uma casa da cultura, faz poltica. Suas campanhas
no Alger Rpublicain para denunciar a misria dos muulmanos o
levam a ser obrigado a deixar a Arglia, onde j no querem lhe
arranjar trabalho. Na Frana, durante a guerra, se faz um dos
sustentculos do jornal clandestino Combat. Com a libertao, o
Combat, de que ele  o redator-chefe,  um dirio que pelo que
reclama e por seu tom, faz poca na histria da imprensa.
Mas  o escritor que j se impe como um dos cabeas da sua
gerao. Em Argel, tinha publicado Npcias e O avesso e o direito.
Erroneamente vinculado ao movimento existencialista, que atinge o
apogeu no ps-guerra, Albert Camus escreve, na verdade, uma
obra articulada em torno do absurdo e da revolta. Talvez tenha sido
Faulkner quem melhor resumiu o seu sentido geral: "Camus dizia
que o nico verdadeiro papel do homem, nascido em um mundo
absurdo, era viver, ter conscincia de sua vida, de sua revolta, de
sua liberdade".E o prprio Camus explicou como havia concebido o
conjunto de sua obra: "No incio eu queria exprimir a negao. Em
trs formas: romanesca - foi O estrangeiro; dramtica - Calgula, O
equvoco; ideolgica - O mito de Ssifo. E previa o positivo em trs
formas tambm: romanesca - A peste; dramtica - O estado de stio
e Os justos; ideolgica - O homem revoltado. J entrevia uma
terceira categoria, em torno do tema do amor".
A peste, assim, iniciado em 1941, em Oran, cidade que servir de
cenrio para o romance, simboliza o mal, um tanto como Moby Dick,
cujo mito impressiona Camus. Contra a peste, os homens adotaro
diversas atitudes e mostraro que o homem no fica numa completa
impotncia diante da sorte que lhe cabe. Esse romance da
separao, da infelicidade e da esperana, lembrando de maneira
simblica aos homens de seu tempo o que acabavam de viver,
desfrutou de um enorme sucesso.
O homem revoltado, em 1951, no afirma outra coisa. "Quis dizer a
verdade sem deixar de ser generoso", escreve Camus, que diz
tambm deste ensaio que lhe trouxe muitas inimizades e o indisps
principalmente com os surrealistas e com Sartre: "No dia em que o
crime se ornamenta com os despojos da inocncia, por uma curiosa
deformao que  prpria do nosso tempo,  a inocncia que se v
intimada a apresentar suas justificativas. A ambio deste ensaio
seria a de aceitar e examinar este estranho desafio".
Cinco anos mais tarde, A queda parece o fruto amargo do tempo
das desiluses, do retiro, da solido. A queda j no desenvolve o
processo do mundo absurdo em que os homens morrem e no so
felizes. Desta vez,  a natureza humana que  culpada. "Onde
comea a confisso, onde a acusao?", escreve o prprio Camus
a propsito dessa narrativa nica em sua obra. "Em todo o caso,
uma nica verdade nesse jogo de espelhos calculado: a dor e o que
ela promete".
Um ano depois, em 1957, o Prmio Nobel  concedido a Camus
pelos seus livros e tambm, sem dvida, por esse combate que ele
nunca parou de travar contra tudo o que pretende esmagar o
homem. Esperava-se um novo desenvolvimento de sua obra
quando, a quatro de janeiro de 1960, ele morreu num acidente de
carro.
                                                     A Pascal Pia
               UM RACIOCNIO ABSURDO

        minha alma, no aspira  imortalidade: esgota o campo do
                                                          possvel.
                                                  Pndaro, 3a ptica.


As pginas que se seguem tratam de uma sensibilidade absurda
que se pode encontrar esparsa em nosso sculo - e no de uma
filosofia absurda que o nosso tempo, para sermos claros, no
conheceu. , portanto, de uma honestidade primordial assinalar,
logo de incio, o que elas devem a certos espritos contemporneos.
Minha inteno de ocult-los  to pequena, que eles se vero
todos citados e comentados ao longo da obra.
Mas  proveitoso observar, ao mesmo tempo, que o absurdo,
tomado at aqui como concluso,  considerado neste ensaio como
um ponto de partida. Nesse sentido, pode-se dizer o quanto h de
provisrio na minha ponderao: nada se saberia conjeturar na
posio a que ela obriga. Aqui somente se encontrar a descrio,
em estado puro, de uma doena do espritoi. Nenhuma metafsica,
nenhuma crena esto misturadas com isso, no momento. So os
limites e o compromisso nico deste livro.


       O absurdo e o suicdio


S existe um problema filosfico realmente srio:  o suicdio.
Julgar se a vida vale ou no vale a pena ser vivida  responder 
questo fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem trs
dimenses, se o esprito tem nove ou doze categorias, aparece em
seguida. So jogos.  preciso, antes de tudo, responder. E se 
verdade, como pretende Nietzsche, que um filsofo, para ser
confivel, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importncia
dessa resposta, j que ela vai preceder o gesto definitivo. Esto a
as evidncias que so sensveis para o corao, mas  preciso
aprofundar para torn-las claras  inteligncia.
Se me pergunto em que julgar se uma questo  mais urgente do
que outra, respondo que  com aes a que ela induz. Eu nunca vi
ningum morrer pelo argumento ontolgico. Galileu, que detinha
uma verdade cientfica importante, abjurou-a com a maior facilidade
desse mundo quando ela lhe ps a vida em perigo. Em um certo
sentido, ele fez bem. Essa verdade no valia a fogueira. Se  a
Terra ou o Sol que gira em torno um do outro  algo profundamente
irrelevante. Resumindo as coisas,  um problema ftil. Em
compensao, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a
vida no vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se
fazem matar pelas idias ou as iluses que lhes proporcionam uma
razo de viver (o que se chama uma razo de viver , ao mesmo
tempo, uma excelente razo para morrer). Julgo, portanto, que o
sentido da vida  a questo mais decisiva de todas. E como
responder a isso? A respeito de todos os problemas essenciais, o
que entendo como sendo os que levam ao risco de fazer morrer ou
os que multiplicam por dez toda a paixo de viver, provavelmente s
h dois mtodos para o pensamento: o de La Palisse e o de Don
Quixote.  o equilbrio da evidncia e do lirismo o nico que pode
nos permitir aquiescer ao mesmo tempo  emoo e  clareza. Em
um assunto simultaneamente to modesto e to carregado de
pattico a dialtica clssica e mais sbia deve, pois dar lugar -
convenhamos - a uma atitude intelectual mais humilde e que opera
tanto o bom senso como a simpatia.
O suicdio sempre foi tratado somente como um fenmeno social.
Ao invs disso, aqui se trata, para comear, da relao entre o
pensamento individual e o suicdio. Um gesto como este se prepara
no silncio do corao, da mesma forma que uma grande obra. O
prprio homem o ignora. Uma tarde ele d um tiro ou um mergulho.
De um administrador de imveis que tinha se matado, me disseram
um dia que ele perdera a filha h cinco anos, que ele mudara muito
com isso e que essa histria "o havia minado". No se pode desejar
palavra mais exata. Comear a pensar  comear a ser minado. A
sociedade no tem muito a ver com esses comeos. O verme se
acha no corao do homem.  ali que  preciso procur-lo. 
preciso seguir e compreender esse jogo mortal que arrasta a lucidez
em face da existncia  evaso para fora da luz.
H muitas causas para um suicdio e, de um modo geral, as mais
aparentes no tm sido as mais eficazes. Raramente algum se
suicida por reflexo (embora a hiptese no se exclua). O que
desencadeia a crise  quase sempre incontrolvel. Os jornais falam
freqentemente de "profundos desgostos" ou de "doena incurvel".
Essas explicaes so vlidas. Mas seria preciso saber se no
mesmo dia um amigo do desesperado no lhe falou em tom
indiferente. Este  o culpado. Pois isso pode ser o suficiente para
precipitar todos os rancores e todos os aborrecimentos ainda em
suspenso.ii
Mas, se  difcil fixar o instante preciso, o procedimento sutil em que
o esprito se decidiu pela morte,  mais fcil extrair do prprio gesto
as conseqncias que pressupe. Matar-se  de certo modo, como
no melodrama, confessar. Confessar que se foi ultrapassado pela
vida ou que no se tem como compreend-la. Mas no nos
deixemos levar tanto por essas analogias e voltemos  linguagem
corrente.  somente confessar que isso "no vale a pena".
Naturalmente, nunca  fcil viver. Continua-se a fazer gestos que a
existncia determina por uma srie de razes entre as quais a
primeira  o hbito. Morrer voluntariamente pressupe que se
reconheceu, ainda que instintivamente, o carter irrisrio desse
hbito, a ausncia de qualquer razo profunda de viver, o carter
insensato dessa agitao cotidiana e a inutilidade do sofrimento.
Qual , portanto, esse sentimento incalculvel que priva o esprito
do sono necessrio  vida? Um mundo que se pode explicar mesmo
com parcas razes  um mundo familiar. Ao contrrio, porm, num
universo subitamente privado de luzes ou iluses, o homem se
sente um estrangeiro. Esse exlio no tem sada, pois  destitudo
das lembranas de uma ptria distante ou da esperana de uma
terra prometida. Esse divrcio entre o homem e sua vida, entre o
ator e seu cenrio,  que  propriamente o sentimento da
absurdidade. Como j passou pela cabea de todos os homens
sos o seu prprio suicdio, se poder reconhecer, sem outras
explicaes, que h uma ligao direta entre este sentimento e a
atrao pelo nada.
O assunto deste ensaio  precisamente essa relao entre o
absurdo e o suicdio, a medida exata em que o suicdio  uma
soluo para o absurdo. Pode-se tomar por princpio que, para um
homem que no trapaceia, o que ele acredita verdadeiro deve lhe
pautar a ao. A crena na absurdidade da existncia deve, pois,
lhe dirigir o comportamento.  uma curiosidade legtima se indagar
claramente, e sem falso pateticismo, se uma concluso de tal ordem
exige que se abandone o mais que depressa uma condio
incompreensvel. Refiro-me aqui,  claro, a homens dispostos a
estarem de acordo consigo mesmos.
Apresentado em termos claros, esse problema pode parecer ao
mesmo tempo simples e insolvel. Mas se supe erroneamente que
problemas simples suscitam respostas que no o so menos e que
a evidncia implica evidncia. A priori, e invertendo os termos da
questo, assim como algum se mata ou no se mata, parece s
haver duas solues filosficas, a do sim e a do no. Isso seria belo
demais. Mas  preciso incluir a parte daqueles que, sem consumar
interrogam sempre. Mas, chego, aqui, a ironizar: se trata de maioria.
De igual modo, vejo que os que respondem no podem agir como
se pensassem sim. Com efeito, se concordo com o critrio
nietzschiano, eles pensam sim de um modo ou de outro. Ao
contrrio, acontece muitas vezes que aqueles que se suicidam
estavam convencidos do sentido da vida. Tais contradies so
constantes. Pode-se mesmo dizer que elas nunca foram to vivas
quanto neste ponto em que a lgica, inversamente, parece to
desejvel.  um lugar-comum comparar as teorias filosficas com o
comportamento daqueles que as professam. Mas  preciso ressaltar
que, entre os pensadores que no admitiram um sentido de vida,
com exceo de Kirlov, que pertence  literatura, de Peregrinos,
que se origina da lenda,iii e de Jules Lequier, que aventa a hiptese,
nenhum conciliou sua lgica a ponto de recusar sua vida. Por
zombaria , menciona-se muito Schopenhauer ao fazer o elogio do
suicdio ante uma mesa bem fornida. A no h nenhum motivo para
brincadeira. Esse modo de no levar a srio o trgico no  to
grave, mas acaba por julgar um homem.
Diante de tais contradies e tais obscuridades,  preciso acreditar,
conseqentemente, que no h nenhuma relao entre a opinio
que se pode ter sobre a vida e o gesto que se faz para deix-la?
Nada de exageros nesse sentido. No apego de um homem  vida
h alguma coisa de mais forte que todas as misrias do mundo. O
julgamento do corpo vale tanto quanto o do esprito e o corpo recua
ante o aniquilamento.
Adquirimos o hbito de viver antes de adquirir o de pensar. Nessa
corrida que todos os dias nos precipita um pouco mais para a morte,
o corpo mantm esta vantagem inaltervel. Enfim, o essencial
dessa contradio se acha no que denominarei a escapada por ser,
ao mesmo tempo, um tanto menos e mais que o entretenimento no
sentido pascaliano. A escapada mortal que constitui o terceiro tema
deste ensaio  a esperana. A esperana de uma outra vida que 
preciso "merecer" ou a trapaa dos que vivem no para a prpria
vida mas para alguma grande idia que a ultrapassa ou a sublima,
lhe d um sentido e a atraioa.
Assim, tudo contribui para embaralhar as cartas. No   toa que
at agora fizemos trocadilhos e fingimos acreditar que recusar 
vida um sentido conduz necessariamente a declarar que ela no
vale a pena ser vivida. Na realidade, no h nenhuma
correspondncia obrigatria entre esses dois julgamentos. Apenas 
necessrio se recusar a se deixar perder no meio das confuses,
das dissociaes ou inconseqncias at o momento apontadas. 
preciso separar tudo e ir direto ao verdadeiro problema. Uma
pessoa se mata porque a vida no vale a pena ser vivida, eis sem
dvida uma verdade - improfcua, no entanto, pois no passa de um
trusmo. Mas esse insulto  existncia, esse desmentido em que ela
 mergulhada provm do fato de ela no ter nenhum sentido? Se
sua absurdidade exige que se lhe escape pela esperana ou pelo
suicdio, eis o que se precisa clarear, perseguir e ilustrar, afastando
tudo o mais.  o absurdo que domina a morte:  preciso dar a este
problema precedncia sobre os outros, fora de todos os mtodos de
pensamento e dos jogos do esprito desinteressado. Os matizes, as
contradies, a psicologia que um esprito "objetivo" sempre
consegue introduzir em todos os problemas no tm lugar nessa
pesquisa e nessa paixo. O que a  necessrio  to-somente um
pensamento injusto, isto , lgico. Isso no  fcil.  sempre
cmodo ser lgico.  quase impossvel ser lgico at o fim. Os
homens que morrem por suas prprias mos seguem assim at o
fim a inclinao do seu sentimento. A reflexo sobre o suicdio me
d, ento, a oportunidade de tratar do nico problema que me
interessa: existe uma lgica at a morte?  algo que eu s posso
ficar sabendo se perseguir, sem paixo desordenada, e apenas sob
a luz da evidncia, o raciocnio cuja origem assinalo aqui.  o que
chamo um raciocnio absurdo. Muitos chegaram a come-lo. No
sei se se contentaram com isso.
Quando Karl Jaspers, ao mostrar que era impossvel fazer do
mundo uma unidade, escreve que "Essa limitao me conduz a mim
mesmo, a onde eu no tenho como me livrar, um pouco antes, de
um ponto de vista objetivo que s fao representar, a onde nem eu
mesmo ou a existncia de outrem j no pode se tornar objeto para
mim", evoca, alm de tantos outros, esses lugares desertos e sem
gua onde o pensamento atinge os seus confins. Alm de tantos
outros, sim, no h dvida, mas sob que presses para se livrarem
disso! A essa ltima volta, em que o pensamento vacila, muitos
homens chegaram, e entre os mais humildes. Esses, ento,
renunciavam ao que tinham de mais caro e que era sua vida.
Outros, prncipes diante do esprito, abdicaram tambm, mas foi no
suicdio de seu pensamento, em sua mais pura revolta que o
fizeram. O verdadeiro esforo, ao contrrio,  de no ceder o tanto
quanto possvel e examinar de perto a vegetao barroca desses
lugares distantes. A perspiccia e a tenacidade so espectadores
privilegiados para o jogo inumano em que o absurdo, a esperana e
a morte se alternam nos seus lances. O esprito pode ento analisar
as imagens dessa dana ao mesmo tempo elementar e sutil,
ilustrando-as e revivendo-as ele prprio antecipadamente.


       Os muros absurdos


Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre
significam mais do que tm conscincia de dizer. A constncia de
um movimento ou repulso dentro da alma se reconhece em
hbitos de fazer ou de pensar e se persegue em conseqncias
que a prpria alma ignora. Os grandes sentimentos trazem junto
com eles seu universo, esplndido ou miservel. Com sua paixo,
aclaram um mundo exclusivo onde reencontram seu prprio clima.
H um universo do cime, da ambio, do egosmo ou da
generosidade. Um universo, isto , uma metafsica e um estado de
esprito. O que  verdadeiro para sentimentos j especializados o
ser mais ainda para emoes, no fundo, a um tempo to
indeterminadas, to confusas e to "certas", to distantes e to
"presentes" quanto aquelas que o belo nos desperta ou que o
absurdo nos suscita.
O sentimento da absurdidade para com o desvio de uma rua
qualquer pode se meter na cabea de homem qualquer. Assim
como, em sua desoladora nudez, em sua luz sem cintilao, ele 
incapturvel. Mas at essa dificuldade merece reflexo. 
provavelmente certo que um homem permanece para sempre
desconhecido de ns e que para sempre haver nele alguma de
irredutvel que nos escapa. Mas, praticamente, conheo os homens
e os reconheo em seu comportamento, no conjunto de seus atos,
nas conseqncias que sua passagem vai provocando na vida. De
igual modo, todos esses sentimentos irracionais que a anlise no
saberia dominar eu posso praticamente defini-los, praticamente
apreci-los, para reunir a soma de suas conseqncias na ordem
do entendimento, para captar e anotar todos os seus aspectos, para
descrever seu universo.  verdade que, aparentemente, por ter
visto cem vezes o mesmo ator, eu no conhecerei pessoalmente
melhor esses seus traos. No entanto, se fao a soma dos heris
que ele encarnou e se digo que o conheo um pouco mais na
centsima personagem recenseada, j se sente que haver a uma
parcela de verdade. Porque aparente paradoxo  tambm um
aplogo. Tem a sua moralidade. Ensina-nos que um homem se
define tanto por suas comdias quanto por seus impulsos sinceros.
D-se o mesmo, um tom abaixo, com sentimentos inacessveis no
corao mas parcialmente trados pelos atos que os animam e os
estados de esprito que pressupem. Sente-se que, dessa maneira,
defino um mtodo. Mas tambm se sente que esse mtodo  de
anlise e no de conhecimento. Porque os mtodos envolvem
metafsicas, traem na sua inscincia as concluses que, s vezes,
pretendam ainda no conhecer. Por isso as ltimas pginas de um
livro j esto nas primeiras.  um n inevitvel. O mtodo aqui
definido confessa a percepo de que todo verdadeiro
conhecimento  impossvel. S se podem enumerar as aparncias e
se fazer sentir o clima.
Ento, talvez possamos atingir esse inapreensvel sentimento da
absurdidade nos mundos diferentes, mas fraternos, da inteligncia,
da arte de viver ou da arte simplesmente. O clima da absurdidade
est no comeo. O fim  o universo absurdo e esse estado de
esprito que aclara o mundo com uma luz que lhe  prpria, para
fazer com ela resplandecer o rosto privilegiado e implacvel que
nele identifica.
Todas as grandes aes e todos os grandes pensamentos tem um
comeo irrisrio. As grandes obras nascem, freqentemente, na
esquina de uma rua ou no barulho de um restaurante. Assim
tambm a absurdidade. O mundo absurdo, mais que qualquer outro,
extrai sua nobreza desse nascimento miservel. Em certas
situaes, responder "nada" a uma questo sobre a natureza de
seus pensamentos pode ser uma dissimulao para com um
homem. Os entes queridos sabem disso. Mas se essa resposta 
sincera; se representa esse estado d'alma em que o vazio se torna
e eloqente, em que a cadeia dos gestos cotidianos  rompida, e
em que o corao inutilmente procura o anel que a restabelea,
ento ela  como que o primeiro sinal da absurdidade.
Ocorre que os cenrios se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro
horas de escritrio ou fbrica, refeio, bonde, quatro horas de
trabalho, refeio, sono, e segunda, tera, quarta, quinta, sexta e
sbado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior
parte do tempo. Um dia apenas o "porque" desponta e tudo comea
com esse cansao tingido de espanto. "Comea", isso  importante.
O cansao est no final dos atos de uma vida mecnica, mas
inaugura ao mesmo tempo o movimento da conscincia. Ele a
desperta e desafia a continuao. A continuao  o retorno
inconsciente  mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo
do despertar vem, com o tempo, a conseqncia: suicdio ou
restabelecimento. Em si, o cansao tem alguma coisa de
desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele  bom. Pois tudo
comea com a conscincia e nada sem ela tem valor. Essas
observaes no tm nada de original. Mas so evidentes: por ora
isso  suficiente para a oportunidade de um reconhecimento
sumrio das origens do absurdo. A simples "preocupao" est na
origem de tudo.
Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem
brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em
que  preciso carreg-lo. Vivemos para o futuro: "amanh", "mais
tarde", "quando voc tiver uma situao", "com o tempo voc vai
compreender". Essas inconseqncias so admirveis porque,
afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou
diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse
mesmo lance, se situa com relao ao tempo. Ocupa ali seu lugar.
Reconhece que est num dado momento de uma curva que
confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror
que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo. Amanh, ele queria
tanto amanh, quando ele prprio deveria ter-se recusado
inteiramente a isso. Essa revolta da carne  o absurdoiv.
Um degrau mais abaixo e eis a estranheza: dar-se conta de que o
mundo  "espesso", entrever at que ponto uma pedra  estranha,
nos  irredutvel, e com que intensidade a natureza ou uma
paisagem pode nos negar. No fundo de toda beleza jaz alguma
coisa de inumano e essas colinas, a doura do cu, esses
desenhos das rvores, eis que no mesmo instante perdem o sentido
ilusrio de que os revestimos, doravante mais longnquos que um
paraso perdido. A primitiva hostilidade do mundo, atravs dos
milnios, se levanta de novo contra ns. Por um segundo, no a
compreendemos mais, porque durante sculos s compreendemos
nela as figuras e os desenhos com que previamente a
representvamos, e porque doravante nos faltam foras para nos
valermos desse artifcio. O mundo nos escapa porque volta a ser
ele mesmo. Esses cenrios mascarados pelo hbito tornam a ser o
que so. E se afastam de ns. Assim como h certas horas em que
sob o rosto familiar de uma mulher se redescobre como uma
estranha aquela que se amara h meses ou h anos, talvez
cheguemos at a desejar o que nos torna subitamente to ss. Mas
ainda no  chegada a hora. S h uma coisa: essa espessura e
essa estranheza do mundo  o absurdo.
Os homens tambm destilam um tanto do inumano. Em certas
horas de lucidez, o aspecto mecnico de seus gestos, sua
pantomima destituda de sentido faz ficar estpido tudo aquilo que
os rodeia. Um homem fala no telefone por trs de uma divisria
envidraada; no  ouvido, mas se v sua mmica inalcanvel: e
se pergunta por que ele vive. Esse desconforto diante da
inumanidade do prprio homem, essa queda incalculvel diante a
imagem do que ns somos, essa "nusea" como a denomina um
autor dos nossos diasv,  tambm o absurdo. De igual modo o
estranho que em determinados momentos vem ao nosso encontro
num espelho, o irmo familiar e no entanto inquietante que
reencontramos em nossas prprias fotografias,  ainda o absurdo.
Da eu chego finalmente  morte e  sensao que temos dela.
Sobre esse ponto j se disse tudo e  decente evitar o pattico. Mas
nunca nos espantaremos suficientemente com o que todo mundo
vive como se ningum o "soubesse".  que, na realidade, no existe
experincia da morte. Num sentido estrito, s  experimentado o
que foi vivido e se tornou consciente. Com isso,  indiscutvel que
se pode falar da experincia da morte dos outros.  um sucedneo,
uma viso do esprito, e jamais ficamos muito convencidos dela.
Essa conveno melanclica no pode ser persuasiva. Na
realidade, o horror provm do lado matemtico do acontecimento.
Se o tempo nos assusta,  que ele faz sua demonstrao. A
soluo poder vir em seguida. Todos os belos discursos sobre a
alma tero aqui, ao menos por algum tempo, uma prova dos nove
de seu oposto. Nesse corpo inerte, em que uma bofetada no se
distingue mais, a alma desapareceu. Este lado elementar e
definitivo da aventura torna absurdo o contedo do sentimento. Sob
a iluminao mortal desse destino, aparece a inutilidade. Nenhuma
moral, nenhum esforo so a priori justificados ante as sangrentas
matemticas que organizam a nossa condio.
Ainda uma vez, tudo isso j foi dito e redito. Limito-me a fazer aqui
uma classificao rpida e a indicar esses temas evidentes. Eles
circulam atravs de todas as literaturas e todas as filosofias. A
conversa de todos os dias se nutre deles. No se trata de reinvent-
los. Mas  preciso se certificar dessas evidncias para poder se
interrogar, em seguida, sobre a questo primordial. O que me
interessa, fao questo de repetir, no so tanto as descobertas
absurdas. So suas conseqncias. Se nos certificarmos desses
fatos, o que ser preciso concluir, at onde ir para deixar de
pesquisar? Ser preciso morrer voluntariamente ou, apesar de tudo,
esperar?  necessrio, antes, fazer o mesmo recenseamento rpido
no plano da inteligncia.
O primeiro procedimento do esprito  distinguir o que  verdadeiro
do que  falso. No entanto, desde que o pensamento reflete sobre
ele mesmo o que descobre , inicialmente, uma contradio.  intil
esforar-se para ser convincente a esse respeito. Durante sculos
ningum tratou o caso com uma demonstrao mais clara e mais
elegante que a de Aristteles: "A conseqncia freqentemente
ridicularizada dessas opinies  que elas se destrem por si
mesmas. Porque, afirmando que tudo  verdadeiro, afirmamos a
verdade da afirmao oposta e, conseqentemente, a falsidade da
nossa prpria tese (pois a afirmao oposta no admite que ela
possa ser verdadeira). E, se dizemos que tudo  falso, tambm esta
afirmao se torna falsa. Se declaramos que s  falsa a afirmao
oposta  nossa, nos vemos no obstante forados a admitir um
nmero infinito de julgamentos verdadeiros ou falsos. Porquanto,
quem emite uma afirmao verdadeira declara ao mesmo tempo
que ela  verdadeira, e assim por diante at o infinito."
Esse crculo vicioso  s o primeiro de uma srie em que o esprito
que se inclina sobre si mesmo se perde em um torvelinho
vertiginoso. A prpria simplicidade desses paradoxos leva a que
sejam irredutveis. Sejam quais forem os trocadilhos e as
acrobacias da lgica, compreender , antes de tudo, unificar. O
desejo profundo do prprio esprito em seus procedimentos mais
evoludos vai ao encontro da sensao inconsciente do homem
diante do universo: ele exige familiaridade, tem fome de clareza.
Para um homem, compreender o mundo  reduzi-lo ao humano,
marc-lo com o seu selo. O universo do gato no  o universo do
formigueiro. O trusmo de que "todo pensamento  antropomrfico"
no tem outro sentido. Assim tambm o esprito que procura
compreender a realidade s pode se considerar satisfeito se a reduz
em termos de pensamento. Se o homem reconhecesse que
tambm o universo pode amar e sofrer, ele estaria reconciliado. Se
o pensamento descobrisse nos espelhos cambiantes fenmenos,
relaes eternas que pudessem resumi-los e se resumirem elas
prprias num princpio nico, se poderia falar de uma felicidade do
esprito de que o mito dos bem-aventurados seria apenas um
ridculo arremedo. Essa nostalgia da unidade; esse apetite de
absoluto ilustra o movimento essencial do drama humano. Mas que
essa nostalgia seja um fato no significa que deva ser
imediatamente apaziguada. Porque, se acaso transpondo o abismo
que separa o desejo da conquista, afirmamos com Parmnides a
realidade do Um (seja l o que ele for), camos na ridcula
contradio de um esprito que afirma a unidade total e com a
prpria afirmao prova a sua diferena e a diversidade que
pretendia resolver. Basta esse novo crculo vicioso para sufocar as
nossas esperanas.
Uma vez mais temos a evidncias. Repetirei, novamente, que elas
no so interessantes em si mesmas e sim nas conseqncias que
se podem tirar delas. Conheo outra evidncia: diz-me que a
homem  mortal. No entanto, podem-se contar os espritos que
tiraram disso as concluses extremas.  preciso considerar como
uma referncia permanente, neste ensaio, a constante separao
entre o que imaginamos saber e o que realmente sabemos, o
consentimento prtico e a ignorncia simulada que nos levam a
viver com idias que, se verdadeiramente experimentssemos,
deveriam perturbar toda a nossa vida. Diante dessa contradio
inextricvel do esprito, compreenderemos com preciso e sem
reserva o divrcio que nos separa de nossas prprias criaes.
Enquanto o esprito se cala no mundo imvel de suas esperanas,
tudo se reflete e se organiza na unidade da sua nostalgia. Mas, em
seu primeiro movimento, o mundo se racha e se desmorona: uma
infinidade de clares resplandecentes se oferecem ao
conhecimento.  preciso desistir, para sempre, de reconstruir com
isso a superfcie familiar e tranqila que nos daria paz ao corao.
Depois de tantos sculos de pesquisa, e de tanta abdicao entre
os pensadores, sabemos bem que isso  verdadeiro para todo o
nosso conhecimento. Excetuando-se os racionalistas por profisso,
hoje j no se tem esperana do verdadeiro conhecimento. Se
fosse necessrio escrever a nica histria significativa do
pensamento humano, seria preciso fazer a dos arrependimentos e
das impossibilidades.
De quem e de que, de fato, posso dizer "conheo isso"? Este
corao, em mim, posso experiment-lo e julgo que ele existe. Este
mundo, posso toc-lo e julgo ainda que ele existe. Pra a toda a
minha cincia, o resto  construo. Porque, se tento agarrar este
eu de que me apodero, se tento defini-lo e sintetiz-lo, ele no 
mais do que uma gua que corre entre meus dedos. Posso
desenhar um por um todos os rostos que ele sabe usar, todos
aqueles tambm que lhe foram dados, essa educao, essa origem,
esse ardor ou esses silncios, essa grandeza ou essa mesquinhez.
Mas no se adicionam rostos. At este corao que  o meu
continuar sendo sempre, para mim, indefinvel. Entre a certeza que
tenho da minha existncia e o contedo que tento dar a essa
segurana, o fosso jamais ser preenchido. Serei para sempre um
estranho diante de mim mesmo. Em psicologia, como em lgica, h
verdades mas no h verdade. O "conhece-te a ti mesmo" de
Scrates tem tanto valor quanto o "s virtuoso" do nossos
confessionrios. Revelam uma nostalgia, ao mesmo tempo que uma
ignorncia. So jogos estreis sobre grandes assuntos. So
legtimos apenas na medida exata em que so aproximativos.
Eis a tambm as rvores e conheo suas rugas, eis a gua e
experimento-lhe o sabor. Esses perfumes de relva e estrelas, a
noite, certas tardes em que o corao se descontrai, como eu
negaria o mundo de que experimento o poder e as foras? Contudo,
toda a cincia dessa terra no me dar nada que me possa garantir
que este mundo  para mim. Vocs o descrevem e me ensinam a
classific-lo. Vocs enumeram suas leis na minha sede de saber,
concordo que elas sejam verdadeiras. Vocs desmontam seu
mecanismo e minha esperana aumenta. Por ltimo, vocs me
ensinam que esse universo prestigioso e colorido se reduz ao
tomo e que o prprio tomo se reduz ao eltron. Tudo isso  bom
e espero que vocs continuem. Mas vocs me falam de um invisvel
sistema planetrio em que os eltrons gravitam ao redor de um
ncleo. Vocs me explicam esse mundo com uma imagem.
Reconheo, ento, que vocs enveredam pela poesia: nunca
chegarei ao conhecimento. Tenho tempo para me indignar com
isso? Vocs j mudaram de teoria. Assim, essa cincia que devia
me ensinar tudo se limita  hiptese, essa lucidez se perde na
metfora, essa certeza se resolve como obra de arte. Para o que 
que eu precisava de tantos esforo? As doces curvas dessas
colinas e a mo da tarde sob este corao agitado me ensinam
muito mais. Compreendo que se posso, com a cincia, me apoderar
dos fenmenos e enumer-los, no posso da mesma forma
apreender o mundo. Quando tiver seguido com o dedo todo seu
relevo, no saberei nada alm disso. E vocs me levam a escolher
entre uma descrio que  certa, mas que no me informa nada, e
hipteses que pretendem me ensinar, mas que no so certas.
Estranho diante de mim mesmo e diante desse mundo, armado de
todo o apoio de um pensamento que nega a si mesmo a cada vez
que afirma, qual  essa condio em que s posso ter paz com a
recusa de saber e de viver, em que o desejo da conquista se choca
com os muros que desafiam seus assaltos? Querer  suscitar os
paradoxos. Tudo  organizado para que comece a existir essa paz
envenenada que nos do a negligncia, o sono do corao ou as
renncias mortais.
Tambm a inteligncia, portanto, me diz  sua maneira que este
mundo  absurdo. Seu oposto, que  a razo cega, inutilmente
afirmou que estava tudo claro: eu esperava provas e desejava que
ela tivesse razo. Mas, apesar de tantos sculos pretensiosos,
repletos de tantos homens eloqentes e persuasivos, sei que isso 
falso. Pelo menos nesse aspecto, no existe felicidade se eu no
posso saber. Essa razo universal - moral ou prtica -, esse
determinismo, essas categorias que explicam tudo tm com que
fazer rir o homem honesto. No tm nada a ver com o esprito.
Negam sua verdade profunda, que  estar acorrentado. Nesse
universo indecifrvel e limitado o destino do homem, da em diante,
adquire seu sentido. Uma multido de irracionais se levantou e o
cerca at o ltimo objetivo. Em sua perspiccia reavida e agora
harmonizada, o sentimento do absurdo se aclara e se precisa. Eu
dizia que o mundo  absurdo: estava andando muito depressa.
Esse mundo em si mesmo no  razovel:  tudo o que se pode
dizer a respeito. Mas o que  absurdo  o confronto entre esse
irracional e esse desejo apaixonado de clareza cujo apelo ressoa no
mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem
quanto do mundo. , no momento, o nico lao entre os dois. Cola-
os um ao outro como s o dio pode fundir os seres.  tudo o que
posso discernir nesse universo sem limites em que prossegue a
minha aventura. Paremos aqui. Se considero verdadeira essa
absurdidade que regula minhas relaes com a vida, se me
compenetro desse sentimento que se apossa de mim ante os
espetculos do mundo, desse descortino que me impe a busca de
uma cincia, devo tudo sacrificar a estas certezas e encar-las de
frente para poder mant-las. E devo, sobretudo, pautar de acordo
com elas o meu comportamento, levando-as adiante em todas as
suas conseqncias. Estou falando de honestidade. Mas quero
saber, doravante, se o pensamento pode viver em tais desertos.
J sei que o pensamento pelo menos entrou nesses desertos. A
encontrou seu po. A compreendeu que at ento se alimentava
de fantasmas. E serviu de pretexto a alguns dos temas mais
insistentes da reflexo humana.
A partir do momento em que  reconhecida, a absurdidade  uma
paixo, a mais dilacerante de todas. Mas saber se algum pode
viver com suas paixes, se lhes pode aceitar a mais profunda lei,
que  a de queimar o corao que ao mesmo tempo elas exaltam,
eis a todo o problema. No entanto, no  ainda o que
apresentaremos. Ele est no centro dessa experincia. Chegar a
hora de voltar a ela. Reconheamos, antes de tudo, esses temas e
esses impulsos nascidos do deserto. Bastar enumer-los. Esses
tambm, no presente, so conhecidos por todos. Sempre houve
homens para defender os direitos do irracional. A tradio do que se
pode chamar de pensamento humilhado jamais deixou de estar
viva. A crtica do racionalismo j foi feita tantas vezes que parece
no se ter mais como fazer. No entanto, a nossa poca v renascer
esses sistemas paradoxais que se aplicam em atravancar a razo,
como se ela de fato houvesse sempre andado para a frente. Mas
isso no  tanto uma prova de eficincia da razo quanto da
vitalidade das suas esperanas. No plano da histria, essa
constncia de duas atitudes ilustra a paixo essencial do homem
dilacerado entre seu apelo para a unidade e a viso clara que pode
ter dos muros que a encerram.
Mas talvez em nenhuma outra poca, como na nossa, foi mais vivo
o ataque contra a razo. Desde o grande grito de Zaratustra - "Por
acaso,  a mais velha nobreza do mundo. Eu a reintegrei em todas
as coisas quando disse que no queria nenhuma vontade eterna
acima dela" -, desde a doena mortal de Kierkegaard - "esse mal
que confina com a morte sem mais nada depois dela" -, os temas
significativos e supliciantes do pensamento absurdo se sucederam.
Ou, pelo menos, e essa mincia  fundamental, aqueles do
pensamento irracional e religioso. De Jaspers a Heidegger, de
Kierkegaard a Chestov, fenomenlogos  Scheler, no plano lgico e
no plano moral, toda uma famlia de espritos, aparentados por sua
nostalgia, opostos em seus mtodos ou metas, se obstinaram em
obstruir a estrada real da razo e em reencontrar os caminhos
certos da verdade. Pressuponho, a essa altura, esses pensamentos
conhecidos e vividos. Sejam quais forem ou tenham sido as suas
ambies, todos partiram desse universo indizvel em que "reinam a
contradio, a antinomia, a angstia ou a impotncia. E o que lhes 
comum so justamente os temas que estivemos revelando at
agora. Tambm para eles;  preciso dizer claramente que o mais
importante so as concluses a que se pode chegar com essas
descobertas. A tal ponto, que ser necessrio examin-las
separadamente. No momento, porm, se trata apenas de suas
descobertas e de suas experincias iniciais. Trata-se to-somente
de verificar a sua concordncia. Se seria demasiada presuno
examinar as suas filosofias,  possvel e, em todo caso, suficiente
fazer sentir o clima que lhes  comum.
Heidegger considera friamente a condio humana e anuncia que
esta existncia  humilhada. A nica realidade  a "inquietao" em
toda a escala dos seres. Para o homem perdido na mundo e seus
divertimentos, essa inquietao  um medo breve e fugidio. Mas,
quando esse medo toma conscincia dele mesmo, se transforma
em angstia, o clima permanente do homem lcido "em que a
existncia se redescobre". Esse professor de filosofia escreve sem
nenhum tremor e na linguagem mais abstrata do mundo que "o
carter finito e limitado da existncia humana  mais primordial que
o prprio homem". Interessa-se por Kant mas  para reconhecer o
carter acanhado de sua "Razo pura".  para concluir, nos termos
das suas anlises, que "o mundo nada mais consegue oferecer ao
homem angustiado". Essa inquietao a tal ponto lhe parece, na
verdade, ultrapassar as categorias do raciocnio, que ele pensa
unicamente nela e no fala de outra coisa. Enumera suas faces: de
tdio, quando o homem comum procura nivel-la com ele mesmo, e
mitig-la; de terror, quando o esprito contempla a morte. Ele
tambm no separa a conscincia do absurdo. A conscincia da
morte  o apelo da inquietao e "a existncia recorre ento a um
apelo prprio por intermdio da conscincia".  a voz da prpria
angstia e convoca a existncia "a retornar ela prpria de sua perda
no Se annimo". Tambm para ele no se deve dormir e  preciso
velar at a consumao. Ele se segura nesse mundo absurdo,
denuncia-lhe o carter perecvel. Procura seu caminho no meio dos
escombros.
Jaspers no espera mais nada de toda ontologia, pois pretende que
ns tenhamos perdido a "ingenuidade". Sabe que no podemos
chegar a nada que transcenda o jogo mortal das aparncias. Sabe
que o fim do esprito  o fracasso. Demora-se ao longo das
aventuras espirituais que a histria nos oferece e revela
impiedosamente a falha de cada sistema, a iluso que salvou tudo,
a pregao que no escondeu nada. Nesse mundo devastado,
onde a impossibilidade de conhecer  demonstrada, onde o nada
parece a nica realidade e o desespero sem sada a nica atitude,
ele tenta reencontrar o fio de Ariadne que conduz aos segredos
divinos.
Chestov, por sua vez, em meio a uma obra de admirvel monotonia,
agarrado incessantemente a suas mesmas verdades, demonstra
sem trgua que o sistema mais compacto, o racionalismo mais
universal acaba sempre por se escorar no irracional do pensamento
humano. No lhe escapa nenhuma das evidncias irnicas ou das
ridculas contradies que depreciam a razo. S uma coisa lhe
interessa e  a exceo, seja a da histria do corao ou do
esprito. Atravs das experincias dostoievskianas do condenado 
morte, das aventuras furiosas do esprito nietzschiano, das
imprecaes de Hamlet ou da amarga aristocracia de um Ibsen, ele
descobre, ilumina e engrandece a revolta humana contra o
irremedivel. Recusa suas razes  razo e s comea a orientar
seus passos com alguma deciso no meio desse deserto desbotado
em que todas as certeza se tornaram pedras.
Talvez o mais interessante de todos, Kierkegaard, pelo menos em
uma parte de sua existncia, fez mais do que descobrir o absurdo:
ele o viveu. O homem que escreve "O mais certo dos mutismos no
 o de calar mas o de falar" se convence logo de incio, que
nenhuma verdade  absoluta e no pode tornar satisfatria uma
existncia que  impossvel em si. Don Juan de conhecimento ele
multiplica os pseudnimos e as contradies, escreve os Discursos
edificantes ao mesmo tempo que esse manual de espiritualismo
cnico que  O dirio do sedutor. Recusa as consolaes, a moral,
os princpios de todo repouso. E nada faz para abrandar a dor
desse espinho que sente no corao. Ao contrrio, reanima-o e, na
alegria desesperada de um crucificado contente em s-lo, constri
pea por pea - recusa, lucidez, comdia - uma categoria do
demonaco. Esse rosto a um tempo terno e escarnecedor, essas
piruetas seguidas de um grito que vem do fundo da alma,  o
prprio esprito absurdo s voltas com uma realidade que o
ultrapassa. E a aventura espiritual que leva Kierkegaard a seus
queridos escndalos tambm comea no caos de uma experincia
destituda de seus cenrios e devolvida  sua incoerncia
primordial.
Em um plano bem diferente, o do mtodo, por seus prprios
exageros, Husserl e os fenomenlogos reabilitam a diversidade do
mundo e negam o poder transcendente da razo. O universo
espiritual, com eles, se enriquece de maneira incalculvel. A ptala
de rosa, o marco da quilometragem ou a mo humana tm tanta
importncia quanto o amor, o desejo ou as leis da gravitao.
Pensar; ento, deixa de se unificar, tornar familiar a aparncia por
trs da face de um grande princpio. Pensar  reaprender a ver e a
estar atento,  dirigir sua conscincia,  dar a cada idia e a cada
imagem,  maneira de Proust, um lugar privilegiado.
Paradoxalmente, tudo  privilegiado. O que justifica o pensamento 
sua extrema conscincia. Por ser mais positivo que nos casos de
Kierkegaard ou de Chestov, o procedimento husserliano em sua
origem nega, no obstante, o mtodo clssico da razo, engana a
esperana, abre ao corao e s intuies toda uma proliferao de
fenmenos cuja riqueza tem algo de inumano. Esses caminhos
levam a todas as cincias ou a nenhuma, o que significa que o
meio, aqui,  mais importante do que o fim. Trata-se apenas "de
uma atitude para conhecer" e no de uma consolao. Pelos menos
em sua origem, lembremos.
Como no sentir o parentesco profundo desses espritos? Como
no ver que eles se renem em torno de um lugar privilegiado e
amargo em que a esperana no tem vez? Quero que tudo me seja
explicado, ou nada. E a razo  impotente diante do grito do
corao. O esprito incitado por essa exigncia procura e s
encontra contradies ou despropsitos. O que no compreendo
no tem razo. O mundo est todo ocupado por esses irracionais.
Ele prprio, cuja significao no compreendo, no passa de um
imenso irracional. Poder dizer uma s vez: "isso  claro", e tudo
estaria salvo. Mas esses homens insistentemente proclamam que
no est nada claro, que tudo  caos, que o homem s conserva
sua percepo e conhecimento preciso dos muros que o rodeiam.
Todas essas experincias se entendem e se desentendem de novo.
O esprito que atinge os confins deve trazer um julgamento e
escolher suas concluses. A se colocam o suicdio e a resposta.
Mas eu quero inverter a ordem da pesquisa e partir da aventura
inteligente para voltar aos gestos cotidianos. As experincias que
acabamos de evocar nasceram no deserto que no se deve deixar
. preciso saber pelo menos at onde elas puderam chegar. Nesse
ponto de seu esforo, o homem se v diante do irracional. Sente
dentro de si o desejo de felicidade e de razo. O absurdo nasce
desse confronto entre o apelo humano e o silncio despropositado
do mundo. E isso que no se deve esquecer.  a isso que e preciso
se agarrar, pois toda a conseqncia de uma vida pode nascer da.
O irracional, a nostalgia humana, o absurdo que surge do dilogo
entre eles: eis os trs personagens do drama que deve
necessariamente, acabar com toda a lgica de que uma existncia
 capaz.


       O suicdio filosfico


O sentimento do absurdo no  a mesma coisa que a noo do
absurdo. Ele lhe serve de base e pronto,  tudo. Tambm no se
resume a isso, a no ser no rpido instante em que traz consigo sua
deciso sobre o universo. Em seguida, fica lhe faltando ir mais
longe. Ele est vivo, o que significa que deve morrer ou repercutir
mais adiante. Da mesma forma os temas que reunimos aqui. Mas o
que ainda me interessa neles no so em hiptese alguma obras ou
espritos cuja crtica requereria um outro meio e um outro lugar, mas
a descoberta do que h de comum em suas concluses. Talvez
jamais os espritos tenham sido to diferentes. No entanto,
reconhecemos como idnticas as paisagens espirituais em que eles
se movem. Assim tambm atravs de cincias to distintas o grito
que pe termo a seus itinerrios ressoa do mesmo modo. Sente-se
claramente que h uma atmosfera comum aos espritos que
acabamos de lembrar. Dizer que  uma atmosfera assassina no 
mais do que brincar com as palavras. Viver sob esse cu sufocante
exige que ou se saia disso ou se continue. Trata-se de saber como,
no primeiro caso, se sai, e por que, no segundo, se fica. Defino
assim o problema do suicdio e o interesse que se pode aplicar s
concluses da filosofia existencial.
Quero, antes de tudo, me desviar um pouco do caminho certo. At o
momento,  a partir do lado de fora que temos podido circunscrever
o absurdo. Pode-se, contudo, perguntar o que essa noo contm
de claro e tentar descobrir pela anlise direta, de um lado, a sua
significao, e do outro as conseqncias que acarreta.
Se acuso um inocente de um crime monstruoso, se afirmo a um
homem justo que ele cobiou sua prpria irm, ele me responder
que  absurdo:  uma indignao que tem seu lado cmico. Mas
tambm tem sua razo profunda. O homem virtuoso ilustra com
essa rplica a antinomia definitiva que existe entre o ato que lhe
atribuo e os princpios de toda a sua vida. " absurdo" quer dizer "
impossvel", mas tambm " contraditrio". Se vejo um homem
atacar com arma branca um agrupamento de metralhadoras,
considerarei que seu ato  absurdo. Mas este s o  em virtude da
desproporo que existe entre seu intento e a realidade que o
espera, ou da contradio que posso perceber entre suas foras
reais e o objetivo que tem em vista. De igual modo ns acharemos
que um veredicto  absurdo confrontando-o com o veredicto que os
fatos aparentemente reclamavam. Da mesma maneira, ainda, uma
demonstrao pelo absurdo se processa comparando-se as
conseqncias desse raciocnio com a realidade lgica que se quer
instaurar. Em todos esses casos, do mais simples ao mais
complexo, a absurdidade ser tanto maior quanto mais crescer o
afastamento entre os termos da minha comparao. H casamentos
absurdos, desafios, rancores, silncios, guerras e at acordos de
paz. Para cada um deles, a absurdidade nasce de uma
comparao. Tenho base, portanto, para dizer que o sentimento da
absurdidade no nasce do simples exame de um fato ou impresso
mas que ele brota da comparao entre um estado de fato e uma
certa realidade, entre uma ao e o mundo que a ultrapassa. O
absurdo essencialmente  um divrcio. No est nem num nem
noutro dos elementos comparados: nasce de sua confrontao.
No plano da inteligncia, posso pois afirmar que o absurdo no est
no homem (se semelhante metfora pudesse ter um sentido), nem
no mundo, mas em sua presena comum. , nesse instante, o nico
lao que os une. Se pretendo me limitar s evidncias disso, sei o
que o homem quer, sei o que o mundo lhe oferece e agora posso
dizer que sei ainda o que os une. No tenho necessidade de cavar
mais adiante. Uma nica certeza  suficiente quele que procura.
Trata-se apenas de lhe extrair as conseqncias todas.
A conseqncia imediata  ao mesmo tempo uma regra de mtodo.
A singular trindade que desse modo se divulga no tem nada de
uma Amrica de repente descoberta. Tem no entanto, de comum
com os dados da experincia, isso de ser a um tempo infinitamente
simples e infinitamente complicada. A primeira de suas
caractersticas, a esse respeito,  que ela no pode dividir-se.
Destruir um de seus termos  destru-la de ponta a ponta. No pode
haver absurdo fora de um esprito humano. Assim, como todas as
coisas, o absurdo termina com a morte. Mas tambm no pode
haver absurdo fora deste mundo. E  com esse critrio elementar
que eu julgo que a noo de absurdo  essencial e que ela pode
figurar como a primeira das minhas verdades. A regra de mtodo
evocada antes aparece agora. Se julgo que uma coisa  verdadeira,
devo preserv-la. Se me disponho a trazer a um problema a sua
soluo, no me  conveniente, pelo menos, escamotear com essa
prpria soluo um dos termos do problema. Para mim, o nico
dado  o absurdo. O problema  saber como sair disso e se o
suicida deve se subtrair desse absurdo. A primeira - e, no fundo, a
nica - condio das minhas pesquisas  a de preservar aquilo
mesmo que me esmaga, e de respeitar, conseqentemente, o que
julgo haver ali de essencial. Acabo de defini-lo como uma
confrontao e uma luta sem descanso.
E enfrentando at o fim essa lgica absurda, tenho de reconhecer
que essa luta pressupe a total ausncia de esperana (que no
tem nada a ver com o desespero), a recusa contnua (que no se
deve confundir com a renncia) e a insatisfao consciente (que
no acertaramos em associar  inquietude juvenil). Tudo o que
destri, escamoteia ou ludibria essas exigncias (e, em primeiro
lugar, o consentimento que destri o divrcio) arruina o absurdo e
desvaloriza a atitude que ento se pode propor. O absurdo s tem
sentido na medida em que no se consente nisso.
Existe um fato evidente que parece inteiramente moral:  que um
homem  sempre a presa de suas verdades. Uma vez
reconhecidas, ele no saberia se desligar delas. E  preciso pagar
um tanto por isso. Um homem que tomou conscincia do absurdo
se v atado a ele para sempre. Um homem sem esperana e
consciente de s-lo no pertence mais ao futuro. Isso est na
ordem. Mas est igualmente na ordem que ele se esforce por
escapar ao universo de que  criador. Tudo o que vem acima s
tem sentido precisamente com a considerao desse paradoxo.
Nada pode ser mais instrutivo, sob esse aspecto, do que examinar
agora a maneira pela qual os homens que identificaram o clima do
absurdo - a partir de uma crtica do racionalismo - levaram adiante
as suas conseqncias.
Ora, para me ocupar, com esse fim, das filosofias existenciais, vejo
que todas - sem exceo - me propem a fuga. Por um raciocnio
singular, que parte absurdo sobre os escombros da razo, em um
universo fechado e limitado ao humano, eles divinizam aquilo que
os esmaga e encontram uma razo de esperar naquilo que os
desguarnece. Essa esperana forada , em todos eles, de carter
religioso. Ela merece que a examinemos.
S analisarei aqui, e a ttulo de exemplo, alguns temas peculiares
de Chestov e de Kierkegaard. Mas Jaspers vai nos fornecer, levado
at a caricatura, um exemplo tpico dessa atitude. O resto se tornar
mais claro. Acabamos deixando-o impotente de realizar a
transcendncia, incapaz de sondar a profundidade da experincia e
consciente desse universo transtornado pelo fracasso. Ir ele
progredir ou pelo menos chegar s concluses desse fracasso?
No traz nada de novo. No encontrou, na experincia, nada alm
da confisso de sua impotncia e nenhum pretexto para inferir
qualquer princpio satisfatrio. No entanto, sem justificativa, como
ele prprio o diz afirma de uma s vez e ao mesmo tempo o
transcendente, o ser da experincia e o sentido supra-humano da
vida, ao escrever: "O fracasso, alm de toda explicao e de toda
interpretao possvel, no nos mostra o nada, mas o ser da
transcendncia". Esse ser que de repente, e por um ato cego da
confiana humana, explica tudo e o define como "a unidade
inconcebvel entre o geral e o particular". Assim o absurdo se torna
deus (no mais amplo sentido da palavra) e essa impotncia de
compreender o ser que ilumina tudo. Nada, nesse raciocnio, nos
leva  lgica. Posso cham-lo um salto. E, paradoxalmente,
compreende-se a insistncia, a pacincia infinita de Jaspers para
fazer irrealizvel a experincia do transcendente. Pois, quanto mais
fugidia  essa avaliao, tanto mais v se demonstra essa definio
e mais lhe  real essa transcendncia, pois a paixo de que ele se
vale para afirm-la  justamente proporcional  separao existente
entre seu poder de explicao e a irracionalidade do mundo ou da
experincia. Fica assim parecendo que quanto mais
obstinadamente Jaspers se ocupa de destruir os preconceitos da
razo, mais radical ser a maneira como explicar o mundo. Esse
apstolo do pensamento humilhado vai encontrar no prprio
extremo da humilhao o meio de regenerar o ser em toda a sua
profundidade.
O pensamento mstico nos familiarizou com esses preconceitos.
So to legtimos quanto, afinal, qualquer outra atitude de esprito.
Mas, no momento, tenho de agir como se levasse mais a srio
determinado problema. Sem pressupor um valor geral dessa atitude
ou do seu potencial de ensinamento, quero apenas considerar se
ela responde s condies que me propus e se ela  digna do
conflito que me interessa. Retorno, pois, a Chestov. Um estudioso
menciona uma de suas passagens que merece interesse: "A nica
sada verdadeira", diz ele, "est precisamente ali onde no h sada
conforme o julgamento humano. Do contrrio, para que teramos
ns necessidade de Deus? As pessoas s recorrem a Deus para
obter o impossvel. Para o possvel, os homem se bastam". Se h
uma filosofia chestoviana, posso dizer perfeitamente que acabei de
resumi-la por inteiro. Porque quando, l pelo fim de suas anlises
apaixonadas, Chestov descobre a absurdidade fundamental de toda
existncia, ele no diz de modo algum "eis aqui o absurdo", porm
"eis aqui Deus:  a ele que precisamos louvar, mesmo se no
corresponde a nenhuma das nossa categorias racionais". Para que
no seja possvel a confuso, o filsofo russo insinua at que esse
Deus talvez seja odiento e detestvel, incompreensvel e
contraditrio mas, pela prpria dimenso de ter entre todos os
rostos o mais hediondo, ele afirma ainda mais seu poderio. Sua
grandeza  a sua inconseqncia. Sua prova, sua inumanidade. 
preciso saltar para ele e, atravs desse deslocamento, libertar-se
das iluses racionais. Desse modo, para Chestov, a aceitao do
absurdo concomitante com o prprio absurdo. Verific-lo  aceit-lo,
e todo o esforo lgico de seu pensamento  o de difundi-lo para
fazer saltar, no mesmo lance, a esperana que traz consigo. Tenho
toda a minha vida par faz-lo. Sei que o racionalista acha irritante a
atitude chestoviana. Mas tambm sinto que Chestov tem as suas
razes contra o racionalista e s pretendo saber se ele permanece
fiel s exigncias do absurdo.
Ora, se se admite que o absurdo  o contrrio da esperana, v-se
que o pensamento existencial, para Chestov, pressupe o absurdo
mas s o demonstra para dissip-lo. Essa sutileza de pensamento 
um nmero pattico de saltimbanco. Quando Chestov, alm disso,
ope o seu absurdo  moral vigente e  razo, ele o chama verdade
e redeno. H, pois, na base dessa definio do absurdo uma
aprovao que Chestov lhe oferece. Se se reconhece que todo o
poder dessa noo consiste na maneira como abala as nossas
esperanas elementares, se se sente que o absurdo exige, para
permanecer, que de modo algum se consinta nele, ento se v
claramente que ele perdeu seu verdadeiro rosto, seu carter
humano e relativo, para entrar em uma eternidade ao mesmo tempo
incompreensvel e tranqilizadora. Se h absurdo,  no universo do
homem. Desde o momento em que sua noo se transforma em
trampolim da eternidade, ela j no est ligada  lucidez humana. O
absurdo j no  essa evidncia que o homem depara sem nela
consentir. A luta est ludibriada. O homem integra o absurdo e
nessa comunho faz desaparecer-lhe o carter essencial, que 
oposio, dilacerao e divrcio. Chestov, que cita muito  vontade
a palavra de Hamlet The time is out of joint,vi escreve-a assim como
uma espcie de esperana feroz que se permite atribuir-lhe muito
particularmente. Porque no  assim que Hamlet a pronuncia ou
que Shakespeare a escreve. A embriaguez do irracional e a
vocao do xtase desviam do absurdo um esprito sagaz. Para
Chestov, a razo  v, mas existe algo mais alm da razo. Para
um esprito absurdo, a razo  v e nada existe alm da razo.
Esse salto pode, pelo menos, nos esclarecer um pouco mais sobre
a verdadeira natureza do absurdo. Sabemos que ele s vale num
equilbrio, que ele est antes de tudo na comparao e jamais nos
termos dessa comparao. Mas Chestov faz justamente assentar
todo o peso em um dos termos e destri o equilbrio. Nossa vontade
de compreender, nossa nostalgia de absoluto s so explicveis
justamente na situao em que podemos compreender e explicar
muitas coisas.  intil negar completamente a razo. Ela tem sua
ordem, na qual  eficaz. E  exatamente a da experincia humana.
Eis a por que estamos querendo tornar tudo claro. Se no o
conseguimos, se o absurdo desponta nesse instante,  exatamente
 procura dessa razo eficaz mas limitada e do irracional que est
sempre renascendo. Ora, quando Chestov se irrita contra uma
proposio hegeliana do gnero "os movimentos do sistema solar
se efetuam em conformidade com leis imutveis e essas leis so a
razo", e quando se arma de toda a sua paixo para desarrumar o
racionalismo espinosista, conclui precisamente pela vaidade de toda
razo. Donde, em um rodeio natural e ilegtimo, pela preeminncia
do irracional.vii Mas a passagem no  evidente. Porque aqui podem
intervir a noo de limite e a de plano. As leis da natureza podem
ser vlidas at um certo limite, aps o qual elas se voltam contra si
mesmas para fazer nascer o absurdo. Ou, ainda, elas podem se
legitimar no plano da descrio sem por isso serem verdadeiras no
da explicao. Tudo, ento,  sacrificado ao irracional e, uma vez
escamoteada a exigncia de clareza, o absurdo desaparece com
um dos termos da comparao. O homem absurdo, ao contrrio,
no processa esse nivelamento. Reconhece a luta, no despreza de
modo algum a razo e admite o irracional. Desse modo, ele encobre
do olhar todos os dados da experincia e no est nada disposto a
saltar antes de saber. Ele sabe, somente, que nessa conscincia
atenta no h mais lugar para a esperana.
O que  sensvel em Lev Chestov o ser talvez ainda mais em
Kierkegaard. Certamente, no  fcil assimilar num autor to
esquivo a enunciados claros. Mas, apesar dos escritos
aparentemente opostos, por cima dos pseudnimos, dos jogos e
dos sorrisos, sente-se aparecer em toda a extenso dessa obra
como que o pressentimento (ao mesmo tempo que a assimilao)
de uma verdade que acaba explodindo nos ltimos trabalhos:
tambm ele, Kierkegaard, d o salto. O cristianismo com que tanto
se assustava a sua infncia reaparece finalmente para sua face
mais dura. Tambm para ele a antinomia e o paradoxo se tornam
critrios do religioso. Assim, aquilo mesmo que fazia desesperar do
sentido e da profundidade desta vida lhe d agora sua verdade e
sua clareza. O cristianismo  o escndalo e o que Kierkegaard
procura  simplesmente o terceiro sacrifcio exigido por Incio de
Loiola, aquele com que Deus mais se rejubila: "o sacrifcio do
Intelecto".viii Esse efeito do "salto"  curioso, mas no deve mais nos
surpreender. Ele faz do absurdo o critrio do outro mundo quando 
somente um resduo da experincia deste mundo. "Em seu
fracasso", diz Kierkegaard, "o crente encontra seu triunfo".
Eu no tenho de me questionar a que comovente predio se liga
essa atitude. S devo me questionar se o espetculo do absurdo e
seu carter prprio a legitimam. Sob esse aspecto, sei que no
acontece. Apreciando de novo o contedo do absurdo,
compreende-se melhor o mtodo que inspira Kierkegaard. Entre o
irracional do mundo e a nostalgia revoltada do absurdo, ele no
mantm o equilbrio. No respeita a relao que, para sermos
claros, constitui o sentimento da absurdidade. Certo de no poder
escapar ao irracional, pode ao menos se salvar dessa nostalgia
desesperada que lhe parece estril e sem perspectiva. Mas se ele
pode ter razo nesse aspecto de seu julgamento, no saberia ser a
mesma coisa em sua negao. Se substitui seu grito de revolta por
uma adeso furiosa, ei-lo obrigado a ignorar o absurdo que at aqui
o iluminava e a divinizar a nica certeza que tem a partir de agora: o
irracional. O importante, dizia o abade Galiani  Sra. d'pinay, no 
curar, mas viver com os seus males. Kierkegaard quer curar. Curar
 o seu voto enfurecido, o que lhe percorre todo o dirio. Todo o
esforo de sua inteligncia  para escapar  antinomia da condio
humana. Esforo tanto mais desesperado quanto ele lhe percebe a
inutilidade por clares, nos momentos, por exemplo, em que fala de
si mesmo, como se nem a crena em Deus nem a piedade fossem
capazes de lhe dar paz.  assim que, por um atormentado
subterfgio, ele d a face ao irracional, e a seu Deus os atributos do
absurdo, o que injusto, inconseqente e incompreensvel. Apenas a
inteligncia, nele, tenta abafar a reivindicao profunda do corao
humano. J que nada pode ser provado, tudo pode ser provado.
 o prprio Kierkegaard que nos revela o caminho percorrido. No
estou querendo insinuar nada a respeito, mas como no ler em
suas obras os sinais de uma mutilao quase voluntria da alma
diante da mutilao consentida sobre o absurdo?  o leitmotiv do
Dirio. "O que est me faltando  a besta, visto que ela, tambm
ela, faz parte da humanidade destinada... Mas dai-me logo um
corpo." E mais adiante: "Oh! Principalmente na minha adolescncia,
o que eu no teria dado para ser homem, ainda que seis meses... o
que me falta, no fundo,  um corpo e as condies fsicas da
existncia." Em outro lugar,  o mesmo homem, no entanto, que faz
seu o grande grito de esperana que atravessou tantos sculos e
entusiasmou tantos coraes, salvo o do homem absurdo: "Mas,
para o cristo, a morte no  de maneira nenhuma o fim de tudo e
implica infinitamente mais esperana do que pode para ns conter a
vida, mesmo transbordante de sade e fora." A reconciliao pelo
escndalo  ainda reconciliao. Ela talvez permita, como se v,
arrancar a esperana de seu contrrio que  a morte, mas ainda
que a simpatia nos deixe inclinados para essa atitude,  preciso
dizer, contudo, que o descomedimento no justifica nada. Diz-se,
ento, que isso excede a medida humana, sendo preciso, portanto,
que seja sobre-humano. Mas esse "portanto"  demasiado. No h
nada aqui de certeza lgica. Nem h tambm probabilidade
experimental. Tudo o que posso dizer  que de fato isso excede a
minha medida. Se no extraio da uma negao, pelo menos no
quero construir nada em cima do incompreensvel. Quero saber se
posso viver com o que sei e com isso apenas. Ainda me  dito que
a inteligncia, nesse caso, deve sacrificar seu orgulho e a razo
deve se inclinar. Mas se reconheo os limites da razo, no chego
ao ponto de neg-la, reconhecendo seus poderes relativos. Quero
somente me manter nesse caminho mdio em que a inteligncia
pode permanecer clara. Se tem nisso o seu orgulho, no vejo razo
suficiente para renunciar a ele. Nada mais profundo, por exemplo,
que a viso de Kierkegaard segundo a qual o desespero no  um
fato mas um estado: o prprio estado do pecado. Pois o pecado 
que afasta de Deus. O absurdo, que  o estado metafsico do
homem consciente, no conduz a Deus.ix Talvez essa noo se
esclarea se eu arriscar esta enormidade: o absurdo  o pecado
sem Deus.
Trata-se de viver nesse estado de absurdo. Sei sobre o que
assenta, esse esprito e esse mundo escorados um contra o outro
sem poder se abraar. Indago o estilo de vida desse estado e o que
me  proposto lhe omite o fundamento, nega um dos termos da
oposio dolorosa, me obriga a uma demisso. Pergunto o que
acarreta a condio que reconheo como sendo minha, sei que ela
compreende obscuridade e ignorncia mas me garantem que essa
ignorncia explica tudo e que essa noite  a minha luz. Mas no se
reponde aqui  minha inteno e esse lirismo delirante no pode me
esconder o paradoxo. Kierkegaard pode gritar, advertir: "Se o
homem no tinha uma conscincia eterna, se no fundo de todas as
coisas ele s tinha um poder selvagem e borbulhante produzindo
todas as coisas, o grande e o ftil, no turbiIho de obscuras
paixes, se o vazio sem fundo que nada pode preencher se
escondia sob todas as coisas, que seria pois a vida seno o
desespero?" Esse grito no tem como parar o homem absurdo.
Procurar o que  verdadeiro no  procurar o que  desejvel. "Que
seria pois a vida?"  preciso, como o burro, nutrir-se das rosas da
iluso. Antes de se resignar  mentira, o esprito absurdo prefere
adotar sem temor a resposta de Kierkegaard: "o desespero". Bem
pesadas as coisas, uma alma decidida sempre saber se sair bem.
Eu tomo a liberdade de chamar agora de suicdio filosfico a atitude
existencial. Mas isso no implica um julgamento.  uma maneira
cmoda de designar o movimento pelo qual um pensamento se
nega a si mesmo e tende a se ultrapassar naquilo que constitui sua
negao. Para os existenciais, a negao  seu Deus. Exatamente:
esse deus s se sustenta com a negao da razo humana.x Mas,
como os suicidas, os deuses mudam junto com os homens. H
diversas maneiras de saltar, mas o essencial  saltar. Essas
negaes redentoras, essas contradies finais que negam o
obstculo ainda no vencido, podem nascer tanto ( o paradoxo o
alvo deste raciocnio) de uma inspirao religiosa como da ordem
racional. Elas aspiram sempre ao eterno,  apenas nisso que do o
salto.
O raciocnio que este ensaio vem pretendendo -  preciso diz-lo
uma vez mais - deixa completamente de lado a atitude espiritual
mais propalada em nosso sculo esclarecido: a que se apia sobre
o princpio de que tudo  razo e que tem em vista dar uma
explicao do mundo.  coerente apresentar um panorama
bastante claro, quando se admite que ele deve ser claro. Isso  at
legtimo mas no interessa ao raciocnio que pretendemos aqui.
Sua meta , realmente, esclarecer o procedimento do esprito
quando, partindo de uma filosofia da no-significao do mundo,
acaba por lhe achar um sentido e uma profundidade. O mais
pattico desses procedimentos  de carter religioso e se
exemplifica com o tema do irracional. Mas o mais paradoxal e mais
significativo  evidentemente o que d suas razes e suas rplicas
a um mundo que, inicialmente, imaginava sem princpio e direo.
De qualquer modo, no saberamos chegar s conseqncias que
nos interessam sem oferecer uma amostra dessa nova aquisio do
esprito de nostalgia.
Examinarei apenas o tema da "inteno", que virou moda com
Husserl e os fenomenlogos. J o mencionamos aqui.
Originariamente, o mtodo husserliano nega o procedimento
clssico da razo. Vamos repetir. Pensar no  unificar, tornar
familiar a aparncia sob a fisionomia de um grande princpio.
Pensar  reaprender a ver, dirigir a conscincia, fazer de cada
imagem um lugar privilegiado. Em outras palavras, a fenomenologia
se recusa a explicar o mundo: quer apenas ser uma descrio do
vivido. Ela se encontra com o pensamento absurdo em sua
afirmao inicial de que no existe a verdade, mas somente
verdades. Desde o vento da tarde at essa mo sobre o meu
ombro, cada coisa tem a sua verdade.  a conscincia que a aclara,
pela ateno que lhe presta. A conscincia no forma o objeto de
seu conhecimento, ela somente o fixa, ela  o ato de ateno e,
para retomar uma imagem bergsoniana, se assemelha ao aparelho
de projeo que se fixa subitamente sobre uma imagem. A
diferena  que no h cenrio, mas uma ilustrao sucessiva e
inconseqente. Nessa lanterna mgica, todas as imagens so
privilegiadas. A conscincia mantm sob suspeita, na experincia,
os objetos de sua ateno. Graas ao seu milagre, ela os isola. Eles
se vem desde ento fora de todos os julgamentos.  essa
"inteno" que caracteriza a conscincia. Mas a palavra no
envolve nenhuma idia de finalidade.  usada no sentido de
"direo": s tem valor topogrfico.
 primeira vista, fica parecendo que nada disso contraria o esprito
absurdo. Essa aparente modstia do pensamento que se limita a
descrever e que se recusa a explicar, essa disciplina voluntria de
que procede, paradoxalmente, o enriquecimento profundo da
experincia e o renascimento do mundo em sua prolixidade, eis que
temos a procedimentos absurdos. Pelo menos  primeira vista.
Pois os mtodos de pensamento, neste caso como em outros, se
revestem sempre de dois aspectos, um psicolgico e o outro
metafsico.xi Por isso eles escondem duas verdades. Se o tema da
intencionalidade s pretende ilustrar uma atitude psicolgica pela
qual o real seria esgotado em vez de ser explicado, nada o separa,
de fato, do esprito absurdo. Ele se dispe a arrolar o que no pode
transcender. Afirma apenas que, na ausncia de todo princpio de
unidade, o pensamento ainda pode encontrar sua alegria em
descrever e em compreender em cada face da experincia. A
verdade de que se trata, ento, para cada uma dessas faces,  de
ordem psicolgica. Apenas testemunha o "interesse" que a
realidade pode apresentar.  um modo de despertar um mundo
sonolento e de traz-lo vivo ao esprito. Mas, se quisermos estender
e fundamentar racionalmente essa noo de verdade, se
pretendermos descobrir assim a "essncia" de cada objeto do
conhecimento, restitumos sua profundidade  experincia. Para um
esprito absurdo, isso  incompreensvel. Ora,  essa oscilao da
modstia  segurana que  sensvel na atitude intencional e esse
reflexo do pensamento fenomenolgico ilustrar melhor do que
qualquer outra coisa o raciocnio absurdo.
Porque Husserl fala tambm de "essncias extratemporais" que a
inteno atualiza e se tem a impresso de ouvir Plato. No se
explicam todas as coisas por uma s, mas por todas. No vejo a
diferena. Certamente, essas idias ou essncias que a conscincia
"efetua" ao fim de cada descrio ainda no se pretende que sejam
modelos perfeitos. Mas afirma-se que elas esto diretamente
presentes em todo dado da percepo. No h mais uma nica
idia que explique tudo, mas uma infinidade de essncias que do
um sentido a um infinidade de objetos. O mundo se imobiliza, mas
se esclarece. O realismo platnico se torna intuitivo, mas ainda 
realismo. Kierkegaard mergulhava no seu Deus, Parmnides
precipitava o pensamento no Um. Mas aqui o pensamento se lana
em um politesmo abstrato. E mais: as alucinaes e as fices
fazem igualmente parte das "essncias extratemporais". No novo
mundo das idias a categoria de centauro colabora com aquela,
bem mais modesta, de metropolitano.
Para o homem absurdo, havia ao mesmo tempo uma verdade e
uma amargura nessa opinio puramente psicolgica de que todos
os aspectos do mundo so privilegiados. Que tudo seja privilegiado
redunda em se dizer que tudo  equivalente. Mas o lado metafsico
dessa verdade o leva to longe que, por uma reao elementar ele
talvez se sinta mais perto de Plato. Ensinam-lhe, efetivamente, que
toda imagem pressupe uma essncia igualmente privilegiada.
Nesse mundo ideal, sem hierarquia, o exrcito formal  composto
s de generais. A transcendncia, sem dvida, tinha sido eliminada.
Mas um brusco remoinho do pensamento reintegra no mundo uma
espcie de imanncia fragmentria que devolve ao universo a sua
profundidade.
Devo recear ter levado to longe um tema utilizado com mais
prudncia pelos seus criadores? Li somente essas afirmaes de
Husserl, de aparncia paradoxal, mas de que se sente a lgica
rigorosa, se se lhe admite o que precede: "O que  verdadeiro 
verdadeiro absolutamente, em si; a verdade  uma;  idntica a ela
mesma, sejam quais forem os seres que a percebem, homens,
monstros, anjos ou deuses." A Razo triunfa e trombeteia atravs
dessa voz, no tenho como neg-lo. Que pode significar sua
afirmao no mundo absurdo? A percepo de um anjo ou de um
deus no tem sentido para mim. Esse lugar geomtrico em que a
razo divina ratifica a minha me  para sempre incompreensvel.
At a eu descubro um salto e, por ser dado no abstrato, no
significa menos para mim o esquecimento do que, precisamente,
no estou querendo esquecer. Quando, mais adiante, Husserl
escreve: "Se todas as massas submetidas  atrao
desaparecessem, a lei da atrao nem por isso se acharia
destruda; ela simplesmente ficaria sem aplicao possvel", sei que
me encontro diante de uma metafsica de consolao. E se querem
descobrir a encruzilhada em que o pensamento abandona o
caminho da evidncia, s tenho de reler o raciocnio paralelo que
Husserl desenvolve a respeito do esprito: "Se pudssemos
contemplar claramente as leis exatas dos processos psquicos, elas
se mostrariam igualmente eternas e invariveis como as leis
fundamentais das cincias naturais tericas. Portanto, elas seriam
vlidas, mesmo se no houvesse nenhum processo psquico.
Mesmo que o esprito no fosse, suas leis seriam". Compreendo
agora que, de uma verdade psicolgica, Husserl pretende fazer uma
regra racional: depois de ter negado o poder integrador da razo
humana, ele salta por esse desvio para a Razo eterna.
        O tema husserliano do "universo concreto" no pode, ento,
me surpreender. Dizer-me que todas as essncias no so formais,
mas que existem as materiais, e que as primeiras so o objeto da
lgica, as segundas da cincia,  somente um problema de
definio. O abstrato - me  garantido - s designa uma parte em si
mesma no consistente de um universal concreto. Mas a oscilao
j revelada me permite esclarecer a confuso desses termos. Pois
isso pode querer dizer que o objeto concreto da minha ateno, o
cu, o reflexo dessa gua sobre um lado desta capa conservam
unicamente com eles esse prestgio do real que o meu interesse
isola no mundo. E eu no o negaria. Mas isso pode querer dizer
tambm que essa prpria capa  universal: em sua essncia
particular e eficiente, pertence ao mundo das formas. Compreendo
logo que s se mudou a ordem da procisso. Esse mundo j no
tem seu reflexo em um universo superior, mas o cu das formas se
representa na multido das imagens desta terra. Isso, para mim,
no altera nada. No  de maneira nenhuma o gosto do concreto, o
sentido da condio humana que reencontro aqui, mas um
intelectualismo bastante destemperado para generalizar o prprio
concreto.
Inutilmente nos espantaramos com o paradoxo aparente que leva o
pensamento  sua prpria negao pelos caminhos opostos da
razo humilhada e da razo triunfante. Do deus abstrato de Husserl
ao deus fulgurante de Kierkegaard, a distncia no  to grande. A
razo e o irracional levam  mesma prdica.  que, na verdade, o
caminho importa pouco, a vontade de chegar  suficiente para tudo.
O filsofo abstrato e o filsofo religioso partem da mesma desordem
e se sustentam da mesma angstia. Mas o essencial  explicar.
Aqui a nostalgia  mais forte do que o silncio.  significativo que o
pensamento da poca seja ao mesmo tempo um dos mais
impregnados de uma filosofia da no-significao do mundo e um
dos mais dilacerados em suas concluses. No pra de oscilar
entre a extrema racionalizao do real, que incita a fragment-lo em
razes-tipos, e sua extrema irracionalizao, que incita a diviniz-lo.
Mas esse divrcio  apenas aparente. Trata-se de reconciliar e nos
dois casos o salto  suficiente para isso. Sempre se cr,
erroneamente, que a noo de razo  de sentido nico. Na
verdade, to rigoroso quanto seja em sua ambio, esse conceito
em nada  menos inconstante que outros. A razo nos apresenta
uma face toda humana, mas tambm ela sabe se voltar para o
divino. Desde Plotino, o primeiro que soube concili-Ia com o clima
eterno, ela aprendeu a se desviar do mais caro de seus princpios,
que  a contradio, para integrar a ela o mais estranho, e to
mgico, da participao.xii Ela  um instrumento de pensamento e
no o prprio pensamento. O pensamento de um homem  antes de
tudo sua nostalgia.
Assim como a razo soube pacificar a melancolia plotiniana, ela d
 angstia moderna os meios de se acalmar nos cenrios familiares
do eterno. O esprito absurdo tem menos sorte. O mundo para ele
no  nem to racional, nem a tal ponto irracional. Ele 
despropositado e apenas isso. A razo, em Husserl, acaba por no
ter limites de espcie alguma. O absurdo, ao contrrio, fixa os seus
limites, porque  impotente para acalmar sua angstia. Kierkegaard,
por sua vez, afirma que basta um nico limite para neg-lo. Mas o
absurdo no vai to longe. Para ele, esse limite visa apenas as
ambies da razo. O tema do irracional, tal como  concebido
pelos existenciais,  a razo que se confunde e se liberta enquanto
se nega. O absurdo  a razo lcida que constata os seus limites.
 no final desse caminho difcil que o homem absurdo reconhece
suas verdadeiras razes. Comparando sua exigncia profunda ao
que ento lhe  proposto, ele sente, de sbito que vai se desviar.
No universo de Husserl, o mundo se aclara e esse apetite de
familiaridade que se conserva no corao do homem se torna intil.
No apocalipse de Kierkegaard, esse desejo de clareza deve
renunciar se quer ser satisfeito. O pecado no  tanto saber (sob
esse aspecto, todo o mundo  inocente) quanto desejar saber. 
precisamente o nico pecado em que o homem absurdo poderia ver
fazer-se ao mesmo tempo sua culpabilidade e sua inocncia.
Propem-lhe um desenlace em que todas as contradies passadas
j no so mais do que exerccios polmicos. Mas no  assim que
ele as experimentou.  preciso preservar a verdade delas, que  a
de nunca serem satisfeitas. Ele no quer saber de prdica.
Meu raciocnio pretende ser fiel  evidncia que ele despertou. Essa
evidncia  absurda.  esse divrcio entre o esprito que deseja e o
mundo que ilude, minha nostalgia de unidade, esse universo
disperso e a contradio que os encadeia. Kierkegaard suprime a
minha nostalgia e Husserl volta a juntar o universo. No  o que eu
esperava. Tratava-se de viver e de pensar com essas dilaceraes,
e de saber se era preciso aceitar ou recusar. O problema no pode
ser mascarar a evidncia ou suprimir o absurdo lhe negando um
dos termos da equao.  preciso saber se podemos viver disso ou
se a lgica determina que morramos disso. No me interesso pelo
suicdio filosfico, mas pelo suicdio, sem mais nada. Quero
somente purific-lo do seu contedo de emoes, conhecer sua
lgica e sua honestidade. Qualquer outra posio, para o esprito
absurdo, pressupe o logro e o recuo do esprito ante o que o
esprito traz  tona. Husserl diz obedecer ao desejo de escapar "do
hbito inveterado de viver e pensar em certas condies de
existncia j bem conhecidas e confortveis", mas o salto final, no
seu caso, nos restitui o eterno e sua comodidade. O salto no
representa um perigo extremo, como o pretenderia Kierkegaard. O
perigo, ao contrrio, est no instante sutil que precede o salto.
Saber manter-se sobre essa aresta atordoante, eis a honestidade, o
resto  subterfgio. Sei tambm que jamais a impotncia inspirou
to comoventes acordes quanto os de Kierkegaard. Mas se a
impotncia tem seu lugar nas paisagens indiferentes da histria,
no saberia encontr-la em um raciocnio cuja exigncia estamos
agora conhecendo.


       A liberdade absurda


Agora o principal est feito. Detenho algumas evidncias de que
no posso me separar. O que sei, o que est certo, o que no
posso negar, o que no posso rejeitar, eis o que vale. Posso negar
tudo nessa parte de mim que vive de nostalgias incertas, menos
esse desejo de unidade, essa fome de resolver, essa exigncia de
clareza e coeso. Posso contrariar tudo nesse mundo que me
envolve, me choca ou me transporta, menos esse caos, esse rei
acaso e essa divina equivalncia que nasce da anarquia. No sei se
esse mundo tem um sentido que o ultrapasse. Mas sei que no
conheo esse sentido e que, por ora, me  impossvel conhec-lo.
Que significa, para mim, significado fora da minha condio? S
tenho como compreender em termos humanos. O que toco, o que
me resiste, eis o que compreendo. E essas duas certezas, meu
apetite de absoluto e de unidade, e a irredutibilidade desse mundo a
um princpio racional e razovel, sei tambm que no posso
concili-las. Que outra verdade posso reconhecer sem mentir, sem
fazer intervir uma esperana que no tenho e que nada significa nos
limites da minha condio?
Se eu fosse rvore entre as rvores, gato entre os animais, essa
vida teria um sentido ou, antes, esse problema eu no o teria, pois
faria parte do mundo. Eu seria esse mundo a que agora me oponho
com toda a minha conscincia e toda a minha exigncia de
familiaridade. Essa razo to irrisria,  ela que me ope a toda a
criao. No posso neg-la de uma penada. O que acredito
verdadeiro, tenho, portanto, de manter. O que me parece to
evidente - mesmo contra mim - devo sustentar. E o que constitui o
fundo desse conflito, dessa fratura entre o mundo e o meu esprito,
se no a conscincia que tenho dele? Se quero, pois, mant-lo, 
por uma conscincia permanente, sempre empenhada, sempre
renovada. Eis o que, por ora, preciso reter. Nesse momento, o
absurdo, ao mesmo tempo to evidente e to difcil de conquistar,
volta para a vida de um homem e reencontra sua ptria. Nesse
momento, ainda, o esprito pode deixar a estrada rida e ressequida
do esforo lcido. Agora ela desemboca na vida cotidiana.
Redescobre o mundo do "se" annimo, mas o homem a retorna,
doravante com sua revolta e sua sagacidade. Desaprendeu de
esperar. Esse inferno do presente  finalmente o seu reino. Todos
os problemas readquirem os seus gumes. A evidncia abstrata se
retira ante o lirismo das formas e das cores. Os conflitos espirituais
se encarnam e recobram o abrigo miservel e magnfico do corao
humano. Ningum est resolvido. Mas todos esto transfigurados.
Ser preciso morrer, escapar pelo salto, reconstruir uma casa de
idias e de formas  sua medida? Vai-se, ao contrrio, sustentar a
aposta dilacerante e maravilhosa do absurdo? Faamos, a esse
respeito, um ltimo esforo e deduzamos todas as nossas
conseqncias. O corpo, a ternura, a criao, a ao, a nobreza
humana retomaro ento seu lugar nesse mundo insensato. O
homem reencontrar a, enfim, o vinho do absurdo e o po da
indiferena com que alimenta sua grandeza.
Insistamos ainda sobre o mtodo: trata-se de se obstinar. A uma
certa altura do seu caminho, o homem absurdo  solicitado. A
histria no tem falta de religies, nem de profetas, ainda que sem
deuses. Pede-se a ele que salte. Tudo que pode responder  que
no compreende bem, que isso no  evidente. No quer fazer
exatamente o que compreende bem. Asseguram-lhe que  pecado
de orgulho, mas ele no entende a noo de pecado; que no final
talvez esteja o inferno, mas ele no tem bastante imaginao para
se representar esse estranho futuro; que ele perde a vida eterna,
mas isso lhe parece ftil: Pretenderiam faz-lo reconhecer sua
culpabilidade. Ele se sente inocente. Na verdade, s sente isso, sua
inocncia irreparvel.  ela que lhe permite tudo. Assim, o que ele
exige de si mesmo  viver somente com o que sabe, arranjar-se
com o que existe e no fazer intervir nada que no seja certo.
Respondem-lhe que nada o . Mas esta, pelo menos,  uma
certeza.  dela que ele precisa: quer saber se  possvel viver sem
apelao.
Posso tratar agora da noo de suicdio. J se sentiu que soluo 
possvel lhe dar. Quanto a isso, o problema est invertido. Trata-se,
anteriormente, de saber se a vida devia ter um sentido para ser
vivida. Aqui fica parecendo, ao contrrio, que ela ser vivida melhor
ainda se no tiver sentido. Viver uma experincia, um destino, 
aceit-la plenamente. Ora, no se viver esse destino, sabendo-o
absurdo, se no se faz tudo para manter diante de si esse absurdo
aclarado pela conscincia. Negar um dos termos da oposio de
que ele vive  escapar-lhe. Abolir a revolta consciente  esquivar-se
ao problema. O tema da revoluo permanente se transporta assim
para a experincia individual. Viver  fazer viver o absurdo. Faz-lo
viver , antes de tudo, encar-lo. Ao contrrio de Eurdice, o
absurdo s morre quando algum se desvia dele. Assim, uma das
nicas posies filosficas coerentes  a revolta. Ela  um confronto
permanente do homem com sua prpria obscuridade.  exigncia
de uma impossvel transparncia. E, a cada segundo, questiona o
mundo de novo. Assim como o perigo apresenta ao homem a
insubstituvel ocasio de apoderar-se dela, tambm a revolta
metafsica estende toda a conscincia ao longo da experincia. Ela
 presena constante do homem consigo mesmo. Ela no 
aspirao, no tem esperana. Essa revolta  apenas a certeza de
um destino esmagador, sem a resignao que deveria acompanh-
la.
 aqui que se v a que ponto a experincia absurda se afasta do
suicdio. Pode-se acreditar que o suicdio se segue  revolta. Mas 
engano. Porque ele no representa o resultado lgico. 
precisamente o seu contrrio, pelo consentimento que envolve. O
suicdio, como salto,  a aceitao em seu limite. Tudo est
consumado: o homem volta  sua histria essencial. Seu futuro, seu
nico e terrvel futuro, ele o distingue e se precipita.  sua maneira,
o suicida resolve o absurdo. Ele o arrasta na mesma morte. Mas eu
sei que, para se manter, o absurdo no pode se revolver. Ele
escapa ao suicdio  medida que , ao mesmo tempo, conscincia e
recusa da morte. , no ponto extremo do ltimo pensamento do
condenado  morte, esse cordo de sapato que apesar de tudo ele
percebe a alguns metros, em cima da prpria margem de sua queda
vertiginosa. O contrrio do suicida , precisamente, o condenado 
morte.
Essa revolta d o seu preo  vida. Estendida ao longo de toda uma
existncia, ela lhe devolve sua grandeza. Para um homem sem
antolhos, no existe espetculo mais belo que o da inteligncia
lutando contra uma realidade que o ultrapassa. O espetculo do
orgulho humano  inigualvel. Todas as depreciaes resultam em
nada. Essa disciplina que o esprito impe a si prprio, essa
vontade forjada de todas as peas, esse face-a-face tm algo de
poderoso e singular. Empobrecer essa realidade cuja inumanidade
faz a grandeza do homem , paralelamente, empobrecer a ele
mesmo. Compreendo ento por que as doutrinas que me explicam
tudo me enfraquecem ao mesmo tempo. Elas me descarregam do
peso da minha prpria vida e o que  mais necessrio, no entanto, 
que eu o suporte sozinho. A essa altura s posso conceber que
uma metafsica ctica v se aliar a uma moral da renncia.
Conscincia e revolta: essas recusas so o contrrio da renncia.
Tudo o que h de irredutvel e apaixonado num corao humano as
estimula, ao contrrio de sua vida. Trata-se de morrer irreconciliado,
no de boa vontade. O suicdio  um irreconhecimento. O homem
absurdo s pode esgotar tudo, e se esgotar. O absurdo  sua
tenso extrema, a que ele mantm constantemente com um esforo
solitrio, porque sabe que nessa conscincia e nessa revolta de
cada dia ele testemunha sua nica verdade, que  o desafio.  esta
uma primeira conseqncia.
Se me mantenho nessa posio estipulada, que consiste em extrair
todas as conseqncias (e nada alm delas) que acarreta uma
noo descoberta, me coloco diante de um segundo paradoxo. Para
permanecer fiel a esse mtodo, no tenho nada a fazer com o
problema da liberdade metafsica. No me interessa saber se o
homem  livre. S posso pr  prova a minha prpria liberdade. A
respeito dela, no posso ter noes gerais, mas algumas
impresses inteligveis. O problema da "liberdade em si" no tem
sentido. Porque ele, de uma maneira inteiramente diversa, tambm
est ligado ao de Deus. Saber se o homem  livre exige que se
saiba se ele pode ter um senhor. A absurdidade peculiar a esse
problema provm de que a prpria noo que torna possvel o
problema da liberdade lhe suprime, ao mesmo tempo, todo o
sentido. Porque, diante de Deus, h menos um problema da
liberdade que um problema do mal. Conhecemos a alternativa: ou
ns no somos livres, e Deus todo-poderoso  responsvel pelo
mal, ou somos livres e responsveis, mas Deus no  todo-
poderoso. Todas as sutilezas das vrias escolas no acrescentaram
nem subtraram nada ao corte desse paradoxo.
 por isso que eu no posso me perder na exaltao ou na simples
definio de uma noo que me escapa e que perde o sentido a
partir do instante em que excede os limites da minha experincia
individual. No posso compreender o que pode ser uma liberdade
que me seria dada por um ser superior. Perdi o sentido da
hierarquia. S posso ter, da liberdade, a concepo do prisioneiro
ou do indivduo moderno submetido ao Estado. A nica que
conheo  a liberdade de esprito e de ao. Ora, se o absurdo
aniquila todas as minhas possibilidades de liberdade eterna, ele em
contrapartida me devolve e exalta minha liberdade de ao. Essa
privao de esperana e de futuro significa um crescimento na
disponibilidade do homem.
Antes de deparar com o absurdo, o homem cotidiano vive com
objetivos, uma preocupao com o futuro ou com a justificao
(acerca de quem ou de que no nos importa). Ele avalia suas
possibilidades, conta com o mais tarde, com sua aposentadoria ou o
trabalho de seus filhos. Ainda acredita que alguma coisa da sua
vida pode ser manobrada. Na verdade, ele age como se fosse livre,
ainda que todos os fatos se encarreguem de contradizer essa
liberdade. Aps o absurdo, tudo se acha abalado. Essa idia de que
"eu sou", minha maneira de agir como se tudo tivesse um sentido
(mesmo se eu dissesse, no momento, que nada o tinha), tudo isso
se encontra desmentido de uma forma vertiginosa pela incoerncia
de uma morte possvel. Pensar no dia de amanh, firmar um
objetivo, ter preferncias, tudo isso pressupe a crena na
liberdade, mesmo se s vezes nos convencemos de no a sentir
efetivamente. Nesse instante, porm, essa liberdade superior, essa
liberdade de ser que  a nica a poder fundamentar uma verdade,
sei muito bem, agora, que ela no existe. A morte est ali como
nica realidade. Depois dela, a sorte est lanada. No sou mais
livre para me perpetuar, mas escravo, e escravo, sobretudo, sem
esperana de revoluo eterna, sem refgio no desprezo. E quem,
sem revoluo e sem desprezo, pode permanecer escravo? Que
liberdade, no sentido pleno pode existir sem garantia de
eternidade?
Mas, ao mesmo tempo, o homem absurdo compreende que, at ali,
ele estava ligado a esse postulado de liberdade com cuja iluso
vinha vivendo. De certo modo, isso o atrapalhava.  proporo que
imaginava um objetivo para sua vida, ele se conformava com as
exigncias de um objetivo a atingir e se tornava escravo de sua
liberdade. Assim, eu no saberia mais agir a no ser como o pai de
famlia (ou o engenheiro, ou o lder popular, ou o extranumerrio
dos Correios e Telgrafos) que me preparo para ser. Acredito que
posso melhor escolher ser isso do que outra coisa. Acredito-o
inconscientemente,  bem verdade. Mas defendo, ao mesmo
tempo, meu postulado das crenas dos que me cercam,
preconceitos do meu ambiente humano (os outros esto to
seguros de ser livres e esse bom humor  to contagiante!). Por
mais longe que se possa ficar de todo preconceito moral ou social,
est-se em parte exposto a eles e mesmo, pelos melhores (h bons
e maus preconceitos), amoldamos nossa vida. Assim o homem
absurdo compreende que ele no era realmente livre. Para ser
claro,  medida que espero, que me inquieto com uma verdade que
me seja prpria, com um modo de ser ou de criar,  medida, enfim,
que organizo a vida e que provo, por isso, que admito tenha ela um
sentido, vou me criando barreiras dentro das quais fecho a minha
vida. Fao como tantos funcionrios do esprito e do corao que s
me causam repulsa e que no fazem outra coisa - vejo-o agora
muito bem - seno levar a srio a liberdade do homem.
O absurdo me esclarece sobre esse ponto: no h o dia de
amanh. Eis, daqui em diante, a razo da minha liberdade profunda.
Vou fazer agora duas comparaes.  primeira vista, os msticos
encontram uma liberdade para se dar. Absorvendo-se em seu deus,
consentindo em suas regras, eles se tornam secretamente livres a
seu modo.  na escravido espontaneamente consentida que eles
reencontram uma independncia profunda. Mas que significa essa
liberdade? Pode-se dizer, sobretudo, que eles se sentem livres
diante de si mesmos e menos livres do que, sobretudo, libertados.
Da mesma forma, inteiramente voltado para a morte (compreendida
aqui como a absurdidade mais evidente), o homem absurdo se
sente desembaraado de tudo o que no  essa ateno
apaixonada que se cristaliza nele. Ele prova uma liberdade no que
diz respeito s normas comuns. V-se, agora, que os temas de que
partiu a filosofia existencial conservam todo o seu valor. O retorno 
conscincia, a evaso para fora do sono cotidiano representam os
primeiros procedimentos da liberdade absurda. Mas  a pregao
existencial que se tem em mira e, com ela, esse salto espiritual que,
no fundo, escapa  conscincia. De igual modo ( a minha segunda
comparao), os escravos da Antigidade no podiam dispor de si
mesmos. Mas eles conheciam essa liberdade que consiste em mo
se sentir de modo algum responsvel.xiii Tambm a morte tem mos
patrcias que esmagam, mas que libertam.
Absorver-se nessa certeza sem fundo, sentir-se doravante to
estrangeiro em sua prpria vida a ponto de aument-la e percorr-la
sem a miopia do amante, eis a o princpio de uma libertao. Essa
nova liberdade tem um prazo, como toda liberdade de ao. Ela no
passa cheque para a eternidade. Substitui, porm, as iluses da
liberdade, que se detinham todas com a morte. A divina
disponibilidade do condenado  morte diante de quem se abrem as
portas da priso em meio a um certo - e tnue - alvorecer, esse
inacreditvel desinteresse em relao a tudo, salvo para com a pura
chama da vida, a morte e o absurdo so ento - percebe-se
claramente - os princpios da nica liberdade razovel: a que um
corao humano pode experimentar e viver. Esta  uma segunda
conseqncia. O homem absurdo entrev, assim, um universo
ardente e glido, transparente e limitado, em que nada  possvel,
mas tudo j se deu, depois do que vem o desmoronamento e o
nada. Ele pode, ento, decidir aceitar sua vida em semelhante
universo e dele retirar suas foras, sua recusa  espera e o
testemunho obstinado de uma vida sem consolao.
Mas o que significa a vida em semelhante universo? No momento,
nada alm da indiferena para com o futuro e a paixo de esgotar
tudo o que se deu. A crena no sentido da vida compreende sempre
uma escala de valores, uma escolha, preferncias. A crena no
absurdo, segundo as nossas definies, ensina o oposto. Mas nisso
vale a pena que nos detenhamos. Saber se algum pode viver sem
apelao  tudo o que me interessa. No quero sair nem um pouco
desse ponto. Sendo-me assim manifesta essa fisionomia da vida,
tenho como me acomodar a ela? Ora, em face dessa preocupao
especial, a crena no absurdo passa a substituir a qualidade das
experincias pela quantidade. Se me conveno que essa vida no
tem outra face alm da do absurdo, se comprovo que todo o seu
equilbrio depende dessa permanente oposio entre a minha
revolta consciente e a obscuridade em que ela se debate se admito
que a minha liberdade s tem sentido na relao com o seu destino
limitado, ento eu tenho de dizer que o que vale no  viver melhor
mas viver mais. No preciso me perguntar se isso  vulgar ou
enfadonho, elegante ou lamentvel. De uma vez por todas esto
afastados daqui os juzos de valor em benefcio dos juzos de fato.
Tenho apenas de tirar minhas concluses do que posso ver e no
arriscar nada que no passe de hiptese. Supondo-se que viver
assim no fosse honesto, ento a verdadeira honestidade me
obrigaria a ser desonesto.
Viver mais: em sentido amplo, essa regra de vida no significa
nada.  necessrio deix-la mais precisa.  primeira vista, parece
no se ter aprofundado suficientemente essa noo de quantidade.
Porque ela pode abranger uma grande parte da experincia
humana. A moral de um homem, sua escala de valores s tm
sentido pela quantidade e variedade de experincias que lhe foi
dado acumular. Ora, as condies da vida moderna impem 
maioria dos homens a mesma quantidade de experincias e,
conseqentemente, a mesma experincia profunda.  claro que
tambm  preciso considerar a contribuio espontnea do
indivduo, o que nele j  "dado". Mas eu no posso julgar isso e
mais uma vez a minha regra aqui  a de me dispor de evidncia
imediata. Vejo ento que o carter particular de uma moral comum
reside menos na importncia ideal dos princpios que a animam do
que na norma de uma experincia que  possvel mensurar.
Forando um pouco as coisas, os gregos tinham a moral de seus
lazeres como ns temos a das nossas jornadas de oito horas. Mas
muitos homens - no meio dos mais trgicos - j nos fazem
pressentir que uma experincia mais longa altera o quadro dos
valores. Eles nos fazem imaginar esse aventureiro do cotidiano que
pela simples quantidade das experincias bateria todos os recordes
(emprego de propsito esse vocbulo esportivo) e ganharia assim a
sua prpria moral.xiv Afastemo-nos, porm, do romantismo e nos
perguntemos somente o que pode significar essa atitude para um
homem decidido a manter sua aposta e a observar estritamente o
que acredita ser a regra do jogo.
Bater todos os recordes  antes de tudo, e unicamente, estar diante
do mundo com a maior constncia possvel. Como se pode fazer
isso sem contradies e sem trocadilhos? Porque, de um lado, o
absurdo ensina que todas as experincias so indiferentes e, de
outro, ele impele para a maior quantidade de experincias. Como,
ento, no fazer como tantos desses homens de que eu falava mais
acima, escolher a forma de vida que nos proporciona essa matria
humana o mximo possvel, adotar assim uma escala de valores
que, de outra parte, se pretende rejeitar?
Mas  ainda o absurdo, e sua vida contraditria, que nos ensina.
Porque o erro est em pensar que essa quantidade de experincias
depende das circunstncias da nossa vida, quando ela s depende
de ns. Aqui,  preciso ser simplista. A dois homens que vivem o
mesmo nmero de anos o mundo fornece sempre a mesma soma
de experincias. Cabe a ns estarmos conscientes delas. Sentir sua
vida, sua revolta, sua liberdade, e o mximo possvel,  viver, e o
mximo possvel. A onde reina a lucidez, a escala de valores se
torna intil. Sejamos ainda mais simplistas. Dissemos que o nico
obstculo, a nica "falta a ganhar"  constituda pela morte
prematura. O universo aqui sugerido s vive em oposio a essa
constante exceo que  a morte.  assim que nenhuma
profundeza, nenhuma emoo, nenhuma paixo e nenhum
sacrifcio poderiam tornar iguais aos olhos do homem absurdo
(mesmo se ele o desejasse) uma vida consciente de quarenta anos
e uma lucidez estendida por sessenta anos.xv A loucura e morte so
irremediveis. O homem no escolhe. O absurdo e o acrscimo de
vida que ele comporta no dependem da vontade do homem, mas
de seu contrrio que  a morte.xvi Pesando bem as palavras, trata-
se unicamente de uma questo de possibilidade.  preciso saber e
consentir. Vinte anos de vida e de experincias jamais se
substituiro.
Por uma estranha inconseqncia de uma raa to prevenida, os
gregos pretendiam que os homens que morressem jovens fossem
amados dos deuses. E isso s  verdadeiro se quisermos admitir
que entrar no mundo irrisrio dos deuses  perder para sempre a
mais pura das alegrias, que  sentir e sentir sobre esta terra. O
presente e a sucesso dos presentes diante de uma alma de
incessante conscincia  o ideal do homem absurdo. Mas a palavra
ideal, aqui, soa falso. No  mesmo sua vocao, mas somente a
terceira conseqncia do seu raciocnio. Parte de uma conscincia
angustiada do inumano, a meditao sobre o absurdo retorna, no
fim de seu itinerrio, ao prprio cerne das chamas apaixonadas da
revolta humana.xvii
Assim, eu extraio do absurdo trs conseqncias que so minha
revolta, minha liberdade e minha paixo. Apenas com o jogo da
conscincia transformo em regra de vida o que era convite  morte -
e recuso o suicdio. Conheo, sem dvida, a surda ressonncia que
se estende ao longo desses dias. Mas s tenho uma palavra a
dizer:  que ela  necessria. Quando Nietzsche escreve: "Parece
claramente que a coisa mais importante no cu e sobre a terra 
obedecer por muito tempo e numa mesma direo: com o passar
dos dias, surge da alguma coisa pela qual nos vale a pena viver
sobre esta terra como, por exemplo, a virtude, a arte, a msica, a
dana, a razo, o esprito, alguma coisa que transfigura, alguma
coisa de refinado, de louco ou de divino", ele ilustra uma moral de
grande discernimento. Mas tambm mostra o caminho do absurdo.
Obedecer  chama  ao mesmo tempo o que h de mais fcil e de
mais difcil.  bom, contudo, que o homem, confrontando-se com a
dificuldade, se julgue de vez em quando. Est sozinho para poder
faz-lo.
"A prece", diz Alain, " quando a noite vem sobre o pensamento".
"Mas  preciso que o esprito encontre a noite", respondem os
msticos e os existenciais. Certamente, mas no essa noite que
nasce sob os olhos fechados e s pela vontade do homem - noite
sombria e fechada que o esprito suscita para nela se perder. Se ele
deve achar uma noite, que seja antes aquela do desespero que se
mantm lcido, noite polar, viglia do esprito, de que talvez se
levantar essa claridade branca e intacta que desenha cada objeto
 luz da inteligncia. A essa altura, a equivalncia reencontra a
compreenso apaixonada. J no se trata de julgar o salto
existencial. Ele retoma seu lugar no meio do afresco secular das
atitudes humanas. Para o espectador, se est consciente, esse
salto  ainda absurdo.  medida que acredita resolver esse
paradoxo, ele o restabelece por completo. Sob esse aspecto, 
comovedor. Sob esse aspecto, tudo retoma seu lugar e o mundo
absurdo renasce em seu esplendor e sua diversidade.
Mas  ruim parar,  difcil contentar-se com uma maneira de ver,
privar-se da contradio, talvez a mais sutil de todas as formas
espirituais. O que se diz acima s define um modo de pensar.
Agora, a questo  viver.
                   O HOMEM ABSURDO

Se Stavrguin cr, no cr que cr. Se ele no cr, no cr que no
                                                                cr.
                                                     Os possessos


"Meu campo" diz Goethe " o tempo". Eis a claramente a palavra
absurda. O que , realmente, o homem absurdo? Aquele que, sem
o negar, no faz nada para o eterno. No que a nostalgia lhe seja
estranha. Mas ele prefere sua coragem e seu raciocnio. A primeira
o ensina a viver sem apelao e a se bastar com o que tem, o
segundo o instrui sobre seus limites. Certo de sua liberdade a
prazo, de sua revolta sem futuro e de sua conscincia perecvel,
prossegue em aventura no tempo da sua vida. A est seu campo e
sua ao que ele subtrai a todo julgamento que no seja o seu.
Para ele, uma vida maior no pode significar uma outra vida. Isso
seria desonestidade. Aqui no estou falando sequer dessa
eternidade irrisria que chamam posteridade. Madame Roland se
dedicava a ela. Essa imprudncia recebeu sua lio.xviii A
posteridade cita esse nome de bom grado mas se esquece de
opinar a respeito. Madame Roland  indiferente  posteridade.
A questo, agora, no  dissertar sobre a moral. Vi pessoas agirem
mal com muita moral e todos os dias verifico que a honestidade no
precisa de regras. Se existe uma moral que o homem absurdo pode
admitir: a que no se separa de Deus e que se dita. Mas ele vive
precisamente fora desse Deus. Quanto s outras morais (entendo
tambm o imoralismo), o homem absurdo s v nelas justificativas e
no h nada a justificar. Parto aqui do princpio de sua inocncia.
        Essa inocncia  temvel. "Tudo  permitido", exclama Iv
Karamzov. Isso tambm denota seu absurdo. Mas com a condio
de no o entender vulgarmente. No sei se foi bem observado: no
se trata de um grito de libertao ou de alegria, mas de uma
verificao amarga. A certeza de um Deus que daria seu sentido 
vida ultrapassa de muito, em atrativo, o poder impune de fazer mal.
A escolha no seria difcil. Mas no h escolha e ento comea a
amargura. O absurdo no liberta: liga. No autoriza todos os atos.
Tudo  permitido no significa que nada  proibido. O absurdo
apenas devolve s conseqncias de seus atos a equivalncia
delas. Ele no recomenda o crime. Seria pueril, mas restitui ao
remorso sua inutilidade. Da mesma forma, se todas as experincias
so indiferentes, a do dever  to legtima quanto qualquer outra.
Pode-se ser virtuoso por capricho.
Todas as morais so baseadas na idia de que um ato tem
conseqncias que o legitimam ou o obliteram. Um esprito
sensibilizado pelo absurdo julga apenas que esses desdobramentos
devem ser considerados com serenidade. Em outras palavras, se
para ele pode haver responsveis, no h culpados. Quando muito,
ele consentir em utilizar a experincia passada para basear seus
atos futuros. O tempo levar o tempo a viver e a vida servir a vida.
Nesse campo to reduzido quanto saciado pelos possveis, tudo
nele prprio, com exceo da sua lucidez, lhe parece imprevisvel.
Que regra, pois, poderia provir dessa ordem despropositada? A
nica verdade que lhe pode parecer esclarecedora no  nada
formal: se anima e se desenvolve nos homens. Portanto, no so
diretrizes ticas que o esprito absurdo pode achar no fim do seu
raciocnio, mas ilustraes e o sopro das vidas humanas. As poucas
imagens que se seguem tm essa tendncia. Perseguem o
raciocnio absurdo, dando-lhe sua atitude e seu calor.
Tenho a necessidade de desenvolver a idia de que um exemplo
no  forosamente um exemplo a ser seguido (menos ainda se ele
 possvel no mundo absurdo) e que essas ilustraes no so
modelos para tanto? No s a  indispensvel a vocao como nos
tornamos ridculos, bem guardadas as propores, em concluir com
Rousseau que  preciso andar de quatro e, com Nietzsche, que
convm brutalizar a prpria me. " preciso ser absurdo," escreve
um autor moderno, "no se deve ser ludibriado". As atitudes de que
trataremos s podem adquirir todo o seu sentido com a
considerao de seus contrrios. Um extranumerrio dos Correios 
igual a um conquistador se a conscincia lhes  comum. Quanto a
isso, todas as experincias so indiferentes. Ocorre que elas
servem ou desservem o homem. S o servem se ele  consciente.
Se no, isso no tem importncia: as derrotas de um homem no
julgam as circunstncias, mas ele prprio.
Escolho apenas homens que s aspiram a se consumir ou de que
tenho conscincia, por eles, de que se consomem. Isso no vai
muito longe. S quero falar, no momento, de um mundo em que
tanto os pensamentos como as vidas esto destitudos de futuro.
Tudo o que faz o homem trabalhar e se agitar se utiliza da
esperana. O nico pensamento que no  mentiroso , portanto,
um pensamento estril. No mundo absurdo, o valor de uma noo
ou de uma vida se mede com a sua infecundidade.


       O donjunismo


Se bastasse amar, as coisas seriam muito simples. Quanto mais se
ama, mais o absurdo se consolida. No  de modo algum por falta
de amor que Don Juan vai de mulher em mulher.  ridculo
represent-lo como um iluminado em busca do amor total. Mas 
at porque ele as ama com igual arrebatamento e a cada vez com
toda inteireza, que lhe  preciso repetir esse dom e esse
aprofundamento. Por isso cada uma espera trazer-lhe o que
ningum nunca lhe deu. A cada vez elas se enganam
profundamente e s so bem-sucedidas e lhe fazer sentir a
necessidade dessa repetio. "Enfim," exclama uma delas, "eu lhe
dei o amor". Vamos nos espantar com Don Juan rindo disso:
"Enfim? No," diz ele, "apenas uma vez mais". Por que seria preciso
amar raramente para amar muito?
Don Juan  triste? Isso no  verossmil. Mal terei de apelar para a
crnica. Esse riso, a insolncia vitoriosa, essa agitao e o gosto
pelo teatro, tudo  claro e alegre. Todo ser saudvel tende a se
multiplicar. Da mesma forma Don Juan. Mas, alm disso, os tristes
tm duas razes para s-lo: eles ignoram ou esperam. Don Juan
sabe e no espera. Ele faz pensar nesses artistas que conhecem
seus limites, no passam deles jamais e, nesse intervalo precrio
em que seu esprito se instala, tm todo o desembarao dos
mestres. E est bem a o gnio: a inteligncia que conhece suas
fronteiras. At a fronteira da morte fsica, Don Juan ignora a tristeza.
Desde o instante em que ele sabe, seu riso explode e leva perdoar
tudo: Ele foi triste no tempo em que esperou. Hoje, na boca dessa
mulher, ele reencontra o gosto amargo e reconfortante da nica
cincia. Amargo? Se tanto: essa necessria imperfeio que torna
possvel a felicidade!
 um grande logro tentar ver em Don Juan um homem que bebeu
no Eclesiastes. Porque nada mais  vaidade, para ele, seno a
esperana de uma outra vida. Ele o prova, visto que a joga contra o
prprio cu. O pesar do desejo perdido no divertimento, esse lugar-
comum da impotncia, no lhe diz respeito. Isso combina bem com
Fausto, que muito acreditou em Deus para se vender ao diabo. Para
Don Juan, a coisa  mais simples. O "Burlador" de Molina,xix s
ameaas do inferno, responde sempre: "Como  longo o prazo que
me ds!" O que vem depois da morte  ftil e que longa sucesso
de dias para quem sabe viver! Fausto exigia os bens deste mundo:
o infeliz s tinha de estender a mo. Era j vender a alma no saber
diverti-la. A saciedade, Don Juan lhe d meia-volta. Se ele deixa
uma mulher, no  absolutamente porque no a deseja mais. Uma
mulher bela  sempre desejvel. Mas  que ele deseja uma outra e,
 claro, no  a mesma coisa.
Essa vida o satisfaz, nada  pior do que perd-la. Esse louco  um
grande sbio. Mas os homens que vivem da esperana se
acomodam mal com esse universo em que a bondade d lugar 
generosidade,  ternura, ao silncio viril,  comunho,  coragem
solitria. E todos comentando: " um fraco, um idealista ou um
santo." Sempre  preciso engolir de novo a grandeza que insulta.
Que as pessoas se indignem bastante (ou tenham esse riso
cmplice que degrada o que admira) com os discursos de Don Juan
e com a mesma frase que serve para todas as mulheres. Mas, para
quem procura a quantidade das alegrias, s vale a eficcia. A
passada de conversa que j se saiu bem em tantas provas, para
que complic-la? Ningum, nem a mulher nem o homem, a escuta,
mas antes de tudo a voz que a articula.  a regra, a conveno e a
polidez. Ela se faz, depois do que o mais importante est por se
fazer. Don Juan j se prepara para isso. Por que ele ir se propor
um problema de moral? No , como o Maara de Milosz,xx por
desejo de ser santo que ele se atormenta. O inferno, para ele, 
coisa que estimula. Para a clera divina, ele s tem uma resposta, a
da dignidade humana: "Tenho honra" diz ao Comendador "e cumpri
minha promessa porque sou um cavalheiro". Mas tambm seria
grande o erro de fazer dele um imoralista. Quanto a isso, ele 
"como todo o mundo": tem a moral de sua simpatia ou de sua
antipatia. S se compreende bem Don Juan no que se refere,
sempre, ao que ele simboliza vulgarmente: o sedutor ordinrio e o
homem de mulheres.
Ele  um sedutor ordinrio.xxi Afora essa diferena de que ele 
consciente e  por isso que ele  absurdo. Um sedutor que se
tornou lcido no mudar por causa disso. Seduzir  seu estado. S
nos romances h algum que muda de estado ou se torna melhor.
Mas pode se dizer que, ao mesmo tempo, nada mudou e tudo se
transformou. O que Don Juan coloca em prtica  uma tica da
quantidade, ao contrrio do santo, que tende para a qualidade. No
acreditar no sentido profundo das coisas  a ndole do homem
absurdo. Os rostos calorosos ou maravilhados, ele os percorre, os
armazena e os queima. O tempo caminha com ele. O homem
absurdo  o que no se separa do tempo. Don Juan no pensa em
"colecionar" as mulheres. Ele esgota a quantidade delas e, com
isso, as possibilidades de sua vida. Colecionar  ser capaz de ficar
vivendo do passado. Mas ele rejeita a saudade, essa outra forma da
esperana. No sabe olhar os retratos.
Ele , por isso, egosta?  sua maneira, sem dvida. Mas tambm
a se trata de compreender. H aqueles que so feitos para viver e
aqueles que so feitos para amar. Don Juan, pelo menos, o diria de
bom grado. Mas seria por uma sntese entre as que poderia
escolher. Porque o amor de que se fala aqui  adornado com as
iluses do eterno. Todos os especialistas da paixo nos ensinam
isso: s existe amor eterno contrariado. Quase no existe paixo
sem luta. Um amor semelhante s tem fim na ltima contradio
que  a morte.  preciso ser Werther ou nada. Ainda h, nisso,
diversas maneiras de se suicidar, de que uma  a doao total e o
esquecimento de sua prpria pessoa. Don Juan, tanto quanto um
outro, sabe que isso pode ser emocionante. Mas ele  um dos
nicos a saber que o importante no est a. Sabe-o claramente
tambm: aqueles que um grande amor desvia de toda a vida
pessoal talvez se enriqueam, mas empobrecem inapelavelmente
queles que seu amor escolheu. Uma me, uma mulher apaixonada
tm necessariamente o corao seco, porque ele se afastou do
mundo. Um nico sentimento, um nico ser, um nico rosto, mas
tudo  devorado.  um outro amor que sacode Don Juan e esse 
libertador. Traz consigo todos os rostos do mundo e seu frmito
provm de que ele se sabe perecvel. Don Juan optou por ser nada.
Trata-se, para ele, de ver claro. Ns s chamamos amor o que nos
liga a certos seres por aluso a um modo de ver coletivo e pelo qual
os livros e as lendas so responsveis. Mas conheo apenas, do
amor, essa mescla de desejo, de ternura e inteligncia que me liga
a um ser. Esse composto no  o mesmo para um outro. No tenho
o direito de estender a todas essas experincias o mesmo nome. O
que dispensa de as levar adiante com os mesmos gestos. O homem
absurdo tambm aqui multiplica o que ele no pode unificar. Assim,
descobre uma nova maneira de ser que o libera ao menos tanto
quanto libera os que dele se aproximam. No h amor generoso
alm daquele que se sabe ao mesmo tempo singular e passageiro.
So todas essas mortes e todos esses renascimentos que fazem
para Don Juan o feixe de sua vida.  a maneira que ele tem de dar
e de fazer viver. Deixo para ser julgado se se pode falar de
egosmo.
Penso agora em todos os que querem decididamente que Don Juan
seja punido. No apenas numa outra vida, mas ainda nesta mesma.
Penso em todos esses contos, essas lendas e esses risos sobre
Don Juan envelhecido. Mas Don Juan j est pronto para isso. Para
um homem consciente, a velhice e o que ela pressagia no so
uma surpresa. Ele justamente s  consciente  medida que no se
oculta o horror. Em Atenas havia um templo consagrado  velhice.
Levavam-se as crianas at l. Para Don Juan, quanto mais se ri
dele, mais sua imagem se acusa. Ele recusa, desse modo, aquela
que os romnticos lhe emprestaram. Ningum quer rir desse Don
Juan torturado e lastimvel. Lamentam-no, e o prprio cu o
resgatar? Mas no  bem isso. No universo que Don Juan entrev,
o ridculo tambm est compreendido. Ele acharia normal ser
castigado.  a regra do jogo. E sua generosidade  exatamente ter
aceitado toda a regra do jogo. Mas ele sabe que tem razo e que
no pode tratar-se de castigo. Um destino no  uma punio.
Est nisso o seu crime, e por isso se compreende que os homens
do eterno clamem pelo seu castigo. Ele atinge uma cincia sem
iluses que nega tudo o que eles professam. Amar e possuir,
conquistar e esgotar, eis a a sua maneira de conhecer. (Faz
sentido essa palavra preferida pelas Escrituras e que denomina
"conhecer" o ato de amor.). Ele  seu pior inimigo enquanto ignora.
Um cronista relata que o verdadeiro "Burlador" morreu assassinado
por franciscanos que quiseram "pr um termo nos excessos e
impiedades de Don Juan, cujo bom nascimento garantia a
impunidade". Proclamaram, em seguida, que o cu o havia
fulminado. Ningum teve uma prova desse estranho fim. Nem
ningum demonstrou o contrrio. Mas, sem me perguntar se isso 
verossmil, posso dizer que  lgico. Fao questo de reter aqui o
termo "nascimento" e jogar com as palavras: era o viver que
garantia a sua inocncia. E  unicamente da morte que ele extraiu
uma culpabilidade hoje lendria.
Que significa, alm disso, esse comendador de pedra, essa fria
esttua posta em movimento para punir o sangue e a coragem que
ousaram pensar? Todos os poderes da Razo eterna, da ordem, da
moral universal, toda a grandeza estrangeira de um Deus acessvel
 clera se resumem nele. Essa pedra gigantesca e sem alma
simboliza to-somente os poderes que Don Juan para sempre
recusou. O raio e o trovo podem voltar ao cu factcio onde os
invocaram. A verdadeira tragdia se desenrola afastada deles. No,
no  sob uma mo de pedra que Don Juan morre. Acredito
tranqilamente na bravata legendria, nesse riso insensato do
homem so que provoca um deus que no existe. Mas acredito,
sobretudo, que nessa noite em que Don Juan esperava em casa de
Ana, o comendador no veio e que o mpio teve de sentir, depois da
meia-noite, a terrvel amargura dos que tiveram razo. Aceito ainda
mais tranqilamente o relato de sua vida que o faz esconder-se
para acabar num convento. No  que o lado edificante da histria
pudesse ser considerado verossmil. Que refgio ia pedir a Deus?
Mas isso representa principalmente o resultado de uma vida inteira
crivada de absurdo, o desenlace feroz de uma existncia voltada
para as alegrias sem amanh. O gozo termina ali, na ascese. 
preciso compreender que elas podem ser como as duas faces de
um mesmo desnudamento. Que imagem mais aterrorizante desejar
que essa de um homem trado pelo corpo e que,  falta de ser
morto no tempo prprio, consuma a comdia esperando o fim face a
face com esse deus que ele no adora, servindo-o como serviu a
vida, ajoelhado diante do vazio, os braos estendidos para um cu
sem eloqncia, que ele tambm sabe sem profundidade?
Vejo Don Juan numa cela desses mosteiros espanhis perdidos no
alto de uma colina. E, se ele olha alguma coisa, no so os
fantasmas dos amores desaparecidos mas talvez, por uma seteira
abrasadora, alguma silenciosa plancie da Espanha, terra magnfica
e sem alma em que ele se reconhece. Sim,  nessa imagem
melanclica e refulgente que  preciso parar. O fim definitivo,
esperado mas nunca desejado, o fim definitivo  desprezvel.


       A comdia


"O espetculo," diz Hamlet, "eis a armadilha com que apanharei a
conscincia do rei". Apanhar  a palavra certa. Porque a
conscincia anda depressa ou se encolhe.  preciso captur-la em
pleno vo, nesse momento inestimvel em que ela lana sobre si
mesma um olhar fugaz. O homem cotidiano no gosta nada de
perder tempo. Tudo o impulsiona no sentido oposto. Mas, ao
mesmo tempo, nada lhe interessa mais do que ele prprio,
sobretudo quanto ao que ele poderia ser. Da seu gosto pelo teatro,
pelo espetculo, em que lhe so propostos tantos destinos de que
ele recebe a poesia sem lhes sofrer a amargura. Pelo menos ali se
reconhece o homem inconsciente e continua a se apressar para
sabe-se l que esperana. O homem absurdo comea onde este
ltimo termina, e onde, parando de admirar o jogo, o esprito quer
entrar nele. Penetrar em todas essas vidas, experiment-las em sua
diversidade,  exatamente represent-las. No digo que os atores
em geral correspondam a esse apelo, que eles so homens
absurdos mas que seu destino  um destino absurdo que poderia
seduzir e atrair um corao aberto. Isso era necessrio apresentar
para entender sem contra-senso o que se segue.
O ator reina no perecvel.  sabido que de todas as glrias a sua 
a mais efmera. Isso pelo menos  dito nas conversas. Mas todas
as glrias so efmeras. Do ponto de vista de Srius, as obras de
Goethe dentro de dez mil anos sero p, e seu nome ser
esquecido. Alguns arquelogos, quem sabe, procuraro
"testemunhos" do nosso tempo. Essa idia sempre tem sido
educativa. Bem considerada, ela reduz as nossas agitaes 
nobreza profunda que se acha na indiferena e principalmente
orienta as nossas preocupaes para o mais seguro, isto , para o
imediato. De todas as glrias, a menos enganosa  a que se vive.
O ator escolheu, portanto, a glria incontvel, aquela que se
consagra e se experimenta.  ele quem extrai a melhor concluso
desse fato de que, um dia, tudo tem de morrer. Um ator tem
sucesso ou no o tem. Um escritor mantm uma esperana mesmo
se  desconhecido. Supe que suas obras testemunharo o que ele
foi. O ator nos deixar, no mximo, uma fotografia e nada do que
ele era: seus gestos e seus silncios, seu flego estrito ou sua
respirao no amor no chegaro at ns. No ser conhecido dele
 no representar e no representar  morrer cem vezes em todos
os seres que ele teria animado ou ressuscitado.
O que h de assombroso em achar uma glria perecvel edificada
sobre as mais efmeras das criaes? O ator tem trs horas para
ser Iago ou Alceste, Fedra ou Gloucester. Nessa curta passagem,
ele os faz nascer e morrer sobre cinqenta metros quadrados de
tablado. Jamais o absurdo foi to bem ou por to longo tempo
ilustrado. Essas vidas maravilhosas, esses destinos nicos e
completos que crescem e se acabam entre paredes e em algumas
horas, que sntese mais reveladora desejar? Ao deixar o palco,
Sigismundo no  mais nada. Duas horas depois,  visto jantando
fora.  talvez nesses momentos que a vida  um sonho. Mas depois
de Sigismundo vem um outro. O heri que sofre de incerteza
substitui o homem que ruge aps sua vingana. Percorrendo assim
os sculos e os espritos, imitando o homem tal como pode ser e tal
como , o ator se junta a esse outro personagem absurdo que  o
viajante. Como este, ele esgota alguma coisa e caminha
incessantemente.  o viajante do tempo e, no caso dos melhores, o
viajante perseguido pelas almas. Se a moral da quantidade no
pudesse nunca encontrar um alimento, se daria bem com essa cena
singular. Em que medida o ator se beneficia desses personagens, 
difcil dizer. Mas o importante no est a. Trata-se de saber,
apenas, at que ponto ele se identifica com essas vidas
insubstituveis. Acontece, realmente, que ele as transporta consigo,
e que elas excedem sutilmente o tempo e o espao em que
nasceram: acompanham o ator, que j no se separa facilmente
daquilo que ele foi. Ocorre que, para pegar o seu copo, ele
redescobre o gesto de Hamlet levantando a taa. No, no  to
grande a distncia que o separa dos seres que ele faz viver. Ilustra,
ento, todos os meses, ou todos os dias, e abundantemente, essa
verdade to fecunda de que no h fronteira entre o que um homem
quer e o que ele . At que ponto o parecer faz o ser  que ele
demonstra, se ocupando sempre de representar cada vez melhor.
Porque esta  a sua arte, a de fingir totalmente, de entrar o mais
fundo possvel em vidas que no so as suas. Ao final de seu
esforo, sua vocao se aclara: aplicar-se de todo o corao em
no ser nada ou em ser muitos. Quanto mais estreito  o limite que
lhe  dado para criar seu personagem, tanto mais necessrio lhe 
o talento. Vai morrer dentro de trs horas sob o rosto que hoje  o
seu.  preciso que em trs horas experimente e expresse todo um
destino excepcional. Isso se chama perder-se para se reencontrar.
Dentro de trs horas, ele vai at o fim do caminho sem sada que o
homem da platia leva a vida inteira para percorrer.
Mimo do perecvel, o ator s se exerce e se aperfeioa na
aparncia. A conveno do teatro  que o corao se exprime e se
faz compreender apenas pelos gestos e no corpo - ou pela voz, que
 tanto alma quanto corpo. A lei dessa arte quer que tudo seja
ampliado e se traduza em carne. Se fosse preciso, em cena, amar
como se ama, usar essa insubstituvel voz do corao, olhar como
se contempla, nossa linguagem ficaria cifrada. Aqui os silncios tm
de se fazer entender. O amor eleva o tom e a prpria imobilidade
deve integrar o espetculo. O corpo  rei. No  "teatral" quem quer
e essa palavra, erroneamente desconsiderada, compreende toda
uma esttica e toda uma moral. A metade de uma vida humana se
passa em subentender, desviar a cabea e se calar. O ator, aqui, 
o intruso. Quebra o encanto dessa alma acorrentada e as paixes
enfim se lanam sobre a cena. Falam em todos os gestos, vivem
somente de gritos. Assim o ator compe seus personagens para a
exibio. Desenha-os ou os esculpe, funde-se com sua forma
imaginria e d a seus fantasmas o seu sangue. Falo do grande
teatro,  claro, o que d ao ator a oportunidade de preencher seu
destino todo fsico. Vejam Shakespeare. Nesse teatro
essencialmente do movimento so os furores do corpo que dirigem
a dana. Eles explicam tudo. Sem eles, tudo se desmoronaria.
Jamais o Rei Lear iria ao seu encontro marcado com a loucura sem
o gesto brutal que exila Cordlia e condena Edgar.  justo, ento,
que essa tragdia se desenvolva sob o signo da demncia. As
almas esto entregues aos demnios e  sua sarabanda. Nada
menos que quatro loucos, um por ofcio, outro por vontade, os dois
ltimos por aflio: quatro corpos desordenados, quatro rostos
indizveis de uma mesma condio.
A prpria escala do corpo humano  insuficiente. A mscara e os
coturnos, a maquiagem que reduz e acentua o rosto em seus
elementos essenciais, os figurinos que exageram e simplificam,
esse universo sacrifica tudo  aparncia e  feito apenas para o
olho. Por um milagre absurdo,  tambm o corpo que traz o
conhecimento. Eu jamais compreenderia bem Iago seno o
representando. No me adianta ouvi-lo: eu s o apreendo no
momento em que o vejo. Do personagem absurdo, o ator
conseqentemente tem a monotonia, essa silhueta nica,
atordoante, a um tempo estranha e familiar, que ele faz passear
atravs de todos os personagens. Tambm a a grande obra teatral
favorece essa unidade de tom.xxii  a que o ator se contradiz: o
mesmo e, no entanto, to diverso, tantas almas resumidas por um
s corpo. Mas  a prpria contradio absurda esse indivduo que
quer atingir tudo e viver tudo, essa v tentativa, essa teimosia sem
paradeiro. O que sempre se contradiz, no entanto, nele se une. Ele
est nesse lugar em que o corpo e o esprito se reencontram e se
ligam, em que o segundo, cansado de seus fracassos, se volta para
seu mais fiel aliado. "E abenoados sejam aqueles" diz Hamlet "cujo
sangue e julgamento so to curiosamente misturados que eles no
so flauta em que o dedo da fortuna faz cantar o buraco que lhe
apraz".
Como a Igreja no teria condenado semelhante exerccio por parte
do ator? Ela repudiava nessa arte a multiplicao hertica das
almas, a intemperana das emoes, a pretenso escandalosa de
um esprito que se recusa a s viver um destino e se precipita em
todos os excessos. Ela lhe prescrevia esse gosto do presente e
esse triunfo de Proteu que so a negao de tudo que ela ensina. A
eternidade no  um jogo. Um esprito bastante insensato para
preferir a ela uma comdia no tem mais salvao. Entre "por toda
parte" e "sempre", ele no tem compromisso. Da esse ofcio to
depreciado poder originar um conflito espiritual descomedido. "O
que importa" diz Nietzsche "no  vida eterna,  a eterna
vivacidade". Todo o drama est realmente nessa escolha.
Adriana Lecouvreur, em seu leito de morte, consentiu em se
confessar e comungar, mas se recusou a abjurar sua profisso.
Perdeu, por isso, o benefcio confessional. O que era isso pois,
realmente, seno tomar contra Deus o partido de sua profunda
paixo? E essa mulher em agonia, recusando entre lgrimas
renegar o que chamava sua arte provava uma grandeza que jamais
atingira diante da ribalta. Foi seu mais belo papel, e o mais difcil de
desempenhar. Escolher entre o cu e uma irrisria fidelidade, se
preferir  eternidade ou a se submergir em Deus  a tragdia
secular em que  preciso tomar parte.
Os comediantes da poca se sabiam excomungados. Ingressar na
profisso era escolher o Inferno. E a Igreja distinguia neles seus
piores inimigos. Alguns literatos se indignam: "Imagine, recusar a
Molire os ltimos socorros!" Mas isso era justo para aquele que
morreu em cena e encerrou sob a pintura do rosto uma vida inteira
devotada  disperso. Invoca-se a seu respeito o gnio que
dispensa tudo. Mas o gnio no dispensa nada, exatamente porque
se recusa a isso.
O ator sabia, ento, que punio lhe estava reservada. Mas que
sentido podiam ter to vagas ameaas diante do ltimo castigo que
a vida lhe preparava? Era esse que ele antecipadamente
experimentava, e aceitava por inteiro. Para o ator, como para o
homem absurdo, uma morte prematura  irreparvel. Nada pode
compensar a soma dos rostos e dos sculos que ele, sem isso, teria
percorrido. Mas, seja como for, se trata de morrer. Porque o ator
est sem dvida em toda parte, mas o tempo tambm o acorrenta e
exerce sobre ele seu efeito
Basta ento um pouco de imaginao para sentir o que significa um
destino de ator.  no tempo que ele compe e enumera seus
personagens.  tambm no tempo que aprende a domin-los.
Quanto mais vidas diferentes ele viveu, melhor se separa delas.
Chega o tempo em que  preciso morrer no palco e no mundo. O
que ele viveu est diante dele. V com clareza. Sente o que essa
aventura tem de dilacerante e de insubstituvel. Ele sabe e pode,
agora, morrer. H casas de repouso para velhos comediantes.


       A conquista


"No", diz o conquistador, "no creia que por amar a ao me foi
preciso desaprender a pensar. Ao contrrio, posso perfeitamente
definir aquilo em que acredito. Porque acredito com fora e vejo-o
com uma viso clara e precisa". Desconfie dos que dizem: "Isso eu
conheo bem demais para poder exprimi-lo." Porque, se no o
podem,  porque no o conhecem ou porque, por preguia, pararam
na casca.
No tenho muitas opinies. No final de uma vida, o homem percebe
que passou anos se convencendo de uma nica verdade. Mas uma
s, se  evidente,  bastante para a direo de uma existncia. No
meu caso, decididamente tenho alguma coisa a dizer sobre o
indivduo. Deve-se falar disso com aspereza e, se preciso, com o
devido desprezo.
Um homem  um homem mais pelas coisas que cala do que pelas
que diz. No falta muito para eu me calar. Mas acredito firmemente
que todos aqueles que julgaram o indivduo o tm feito com muito
menos experincia do que ns para fundamentar seu julgamento. A
inteligncia, a comovedora inteligncia talvez tenha pressentido o
que era preciso verificar. Mas a poca, suas runas e seu sangue
nos cumulam de evidncias. Era possvel a povos antigos, e mesmo
aos mais recentes antes da nossa era maquinal, pesar os prs e
contras da sociedade e do indivduo, procurar qual devia servir o
outro. Isso era possvel, antes de tudo, em vista dessa aberrao
insistente no corao do homem e segundo a qual os seres foram
postos no mundo para servir ou serem servidos. E era possvel,
tambm, porque nem a sociedade nem o indivduo tinham ainda
mostrado toda a sua aptido.
Vi espritos sensatos se maravilharem com obras-primas de pintores
holandeses nascidos no corao das sangrentas guerras de
Flandres e se comoverem com as preces dos msticos silesianos
elevadas em meio  pavorosa Guerra dos Trinta Anos. Os valores
eternos, ante seus olhos assombrados, sobrenadam acima dos
tumultos seculares. Mas o tempo continuou andando. Os pintores
de hoje esto privados dessa serenidade. Mesmo se tm no fundo o
corao necessrio ao criador, um corao seco, quero dizer, ele
no  de nenhuma utilidade, pois todo o mundo e o prprio santo
esto mobilizados. Eis a, talvez, o que senti mais profundamente. A
cada forma abortada nas trincheiras, a cada trao, metfora ou
orao triturada sob as ferragens, o eterno perde uma partida.
Consciente de que no posso me separar do meu tempo, resolvi ser
unha e carne com ele.  porque no ligo muito para o indivduo a
no ser que me parea ridculo e humilhado. Ciente de que no h
causas vitoriosas, tomo gosto pelas causas perdidas: elas requerem
uma alma inteira, igual  sua derrota, como a suas vitrias
passageiras. Para quem se sente solidrio com o destino desse
mundo, o choque das civilizaes tem alguma coisa de angustiante.
Fiz minha essa angstia, ao mesmo tempo que quis jogar a minha
partida. Entre a histria e o eterno escolhi a histria porque gosto
das certezas. Pelo menos dela estou certo, e como negar esta fora
que me esmaga?
Acaba sempre chegando um tempo em que  preciso escolher entre
a contemplao e a ao. Chama-se isso tornar-se um homem.
Essas dilaceraes so terrveis. Mas, para um corao orgulhoso,
no pode haver meio termo. H Deus ou o tempo, essa cruz ou
essa espada. Esse mundo tem um sentido mais alto, que ultrapassa
as suas agitaes, ou no h nada verdadeiro a no ser essas
agitaes.  necessrio viver com o tempo e morrer com ele ou se
subtrair a ele para uma vida maior. Sei que se pode transigir e que
se pode viver no sculo acreditando no eterno. Isso se chama
aceitar. Mas essa palavra me repugna, e eu quero tudo ou nada. Se
escolho a ao, no pense que a contemplao me seja como uma
terra desconhecida. Mas ela no pode me dar tudo e, privado do
eterno, quero me aliar ao tempo. No quero fazer constar na minha
conta nem saudade nem amargura: s quero  ver com clareza. 
como lhe digo: amanh voc ser mobilizado. Para voc e para
mim, isso  uma libertao. O indivduo no pode nada e, no
entanto, pode tudo. Nessa maravilhosa disponibilidade voc
compreende por que o exalto e o esmago ao mesmo tempo. E o
mundo que o tritura e sou eu que o liberto. Eu lhe forneo todos os
seu direitos.
Os conquistadores sabem que a ao, em si,  intil. S existe uma
ao til: a que restaura o homem e a terra. Eu no vou nunca
restaurar os homens. Mas  preciso fazer "como se". Pois o
caminho da luta me leva a redescobrir a carne. Mesmo humilhada, a
carne  a minha nica certeza. S posso viver dela. A criatura  a
minha ptria. Eis por que escolhi esse esforo absurdo e sem
perspectiva. Eis por que estou do lado da luta. A poca se presta a
isso, j o disse. At aqui a grandeza de um conquistador era
geogrfica. Media-se pela extenso dos territrios vencidos. No 
por acaso que a palavra mudou de sentido e j no designa o
general vencedor. A grandeza mudou de campo. Ela est no
protesto e no sacrifcio sem futuro. Tambm a, no  por gosto da
derrota. A vitria seria desejvel. Mas s h uma vitria, e  eterna.
 a que nunca terei. Eis para onde eu aponto e ao que me agarro.
Uma revoluo sempre se realiza contra os deuses, a comear por
aquela de Prometeu, o primeiro dos conquistadores modernos. 
uma reivindicao do homem contra seu destino: a reivindicao do
pobre  apenas um pretexto. Mas eu s posso me apoderar desse
esprito em seu ato histrico e  a que o encontro. No acredite,
porm, que me deleito com isso: ante a contradio essencial,
sustento minha humana contradio. Instalo minha lucidez no meio
daquilo que a desmente. Exalto o homem diante do que o esmaga e
minha liberdade, minha revolta e minha paixo se renem assim
nessa tenso, nesse discernimento e nessa repetio
desmesurada.
Sim, o homem  seu prprio fim. E  seu nico fim. Se quer ser
alguma coisa,  nesta vida. Agora eu o sei de sobra. Algumas
vezes, os conquistadores falam de vencer e dominar. Mas  sempre
"se dominar" que eles ouvem. Voc bem sabe o que isso quer dizer.
Todo homem se sentiu, em certos momentos, igual um a deus. 
pelo menos assim que o dizem. Mas isso provm de que, num
claro, ele sentiu a espantosa grandeza do esprito humano. Os
conquistadores so apenas aqueles dentre os homens que sentem
suficientemente sua fora para estarem seguros de viver todo o
tempo em suas alturas e na plena conscincia dessa grandeza. 
uma questo aritmtica, de mais ou de menos. Os conquistadores
podem mais. Mas eles no podem mais que o prprio homem,
quando o quer.  por que eles no deixam nunca o crisol humano,
que mergulha todo em brasa na alma das revolues.
Eles encontram a criatura mutilada, mas tambm redescobrem os
nicos valores que amam e que admiram, o homem e seu silncio.
 ao mesmo tempo sua misria e sua riqueza. Para eles, s existe
um luxo: o das relaes humanas. Como no compreender que
nesse universo vulnervel tudo o que  humano, e nada mais que
isso, adquire um sentido mais acalorado? Rostos estendidos,
fraternidade ameaada, amizade to forte e to pudica dos homens
entre si, so as verdadeiras riquezas, porque so perecveis.  no
meio deles que o esprito sente melhor os seus poderes e limites.
Numa palavra, sua eficcia. Alguns falaram de gnio. Mas ao gnio
-  bom ir dizendo logo - prefiro a inteligncia.  preciso dizer que
ela pode ento ser magnfica. Aclara esse deserto e o domina.
Conhece suas servides e as ilustra. Morrer ao mesmo tempo que
esse corpo. Mas o saber  a sua liberdade.
Ns no o ignoramos: todas as Igrejas esto contra ns. Um
corao to aplicado se esquiva ao eterno e todas as Igrejas,
divinas ou polticas, aspiram ao eterno. A felicidade e a coragem, o
salrio ou a justia so, para elas, fins secundrios.  uma doutrina
que trazem e nos impem subscrever. Mas eu no tenho nada a
fazer com as idias ou com o eterno. As verdades que esto na
minha escala podem ser tocadas com a mo. No posso me
separar delas. Eis por que voc no pode basear nada em mim:
nada do conquistador dura muito, sequer suas doutrinas.
No extremo de tudo isso, apesar de tudo, est a morte. Ns
sabemos. Sabemos tambm que ela liquida tudo. Eis por que esses
cemitrios que cobrem a Europa, e que obsedam alguns dentre ns,
so horrorosos. S se embeleza aquilo que se ama e a morte nos
repugna, nos fatiga. Tambm ela est conquistando. O ltimo
Carrara, prisioneiro numa Pdua esvaziada pela peste, sitiada pelos
venezianos, percorria aos urros as salas de seu palcio deserto:
apelava para o demnio e lhe pedia a morte. Era uma forma de
super-la. E  ainda um trao de coragem prprio do Ocidente ter
tornado to horrveis os lugares em que a morte se cr honrada. No
universo do revoltado, a morte exalta a injustia. Ela  o supremo
abuso.
Outros, igualmente sem transigir, escolheram o eterno e
denunciaram a iluso deste mundo. Seus cemitrios sorriem,
povoados de flores e de pssaros. Isso convm ao conquistador e
lhe d a imagem clara do que ele repeliu. Escolheu, ao contrrio, a
cerca de ferro preto ou a vala comum. Os melhores dentre os
homens do eterno s vezes se sentem tomados de um espanto
repleto de considerao e piedade diante de espritos que podem
viver com uma semelhante imagem de sua morte. No entanto,
esses espritos extraem da a sua fora e a sua justificao. Nosso
destino est diante de ns e  ele que desafiamos. Menos por
orgulho do que por conscincia da nossa condio sem perspectiva.
Tambm ns, at ns temos s vezes piedade de ns mesmos.  a
nica compaixo que nos parece aceitvel: um sentimento que
talvez voc no compreenda e ache pouco viril. No entanto, so os
mais audaciosos dentre ns que o experimentam. Mas ns
chamamos viris os lcidos e no queremos uma fora que se
separe da lucidez.
Uma vez mais no so morais que essas imagens propem, e no
implicam julgamentos: so desenhos. S delineiam um estilo de
vida. O amante, o comediante ou o aventureiro representam o
absurdo. Mas de igual modo, se o quiserem, o casto, o funcionrio
ou o presidente da repblica. Basta saber e no mascarar nada.
Nos museus italianos encontram-se s vezes pequenas telas
pintadas que o padre mantinha diante do rosto dos condenados
para lhes esconder o cadafalso. O salto em todas as suas formas, a
precipitao no divino ou no eterno, a entrega s iluses do
cotidiano ou da idia, todas essas telas escondem o absurdo. Mas
h funcionrios sem telas e  desses que eu quero falar.
Escolhi os mais extremados. A esse ponto, o absurdo lhes d um
poder real.  verdade que esses prncipes esto sem reino mas
eles tm sobre os outros a vantagem de saber que todas as
realezas so ilusrias. Eles sabem, eis a toda a sua grandeza, e 
intil querer falar a seu respeito de infelicidade secreta ou das
cinzas da desiluso. Estar crivado de esperana no  desesperar.
As chamas da terra bem valem os perfumes terrestres. Nem eu nem
ningum pode julg-los aqui. Eles no procuram ser melhores:
tentam ser conseqentes. Se a palavra sbio se aplica ao homem
que vive do que tem sem especular sobre o que no tem, ento
aqueles so sbios. Um deles, conquistador mas no terreno do
esprito, Don Juan mas do conhecimento, comediante mas da
inteligncia, sabe-o melhor que qualquer um: "No se merece de
maneira alguma um privilgio sobre a terra e no cu quando se
levou uma querida e suave doura de carneiro at a perfeio: no
se continua menos, na melhor das hipteses, a ser um caro
carneirinho ridculo e nada mais - mesmo admitindo que no se
arrebente de vaidade e que no se provoque escndalo com as
atitudes de juiz."
Era preciso, em todo caso, devolver ao raciocnio absurdo rostos
mais calorosos. A imaginao pode acrescentar muitos outros,
revirados no tempo e no exlio, que tambm sabem viver de
conformidade com um universo sem futuro e sem fraqueza. Esse
mundo absurdo e sem deus se povoa ento de homens que
pensam claro e no esperam mais. E ainda no falei do mais
absurdo dos personagens, que  o criador.
                  A CRIAO ABSURDA

       Filosofia e romance


Todas essas vidas conservadas no ar rarefeito do absurdo no se
saberiam sustentar sem algum pensamento profundo e constante
que as anima com sua fora. Mesmo esta s pode ser um singular
sentimento de fidelidade. Viram-se homens conscientes
desempenhar sua tarefa em meio s mais estpidas guerras sem se
acreditarem numa contradio.  que se tratava de no se esquivar
a nada. H, desse modo, uma felicidade metafsica a sustentar a
absurdidade do mundo. A conquista ou o jogo, o amor inumervel, a
revolta absurda so homenagens que o homem presta  sua
dignidade numa campanha em que ele est antecipadamente
vencido.
Trata-se apenas de ser fiel  regra do combate. Esse pensamento
pode ser suficiente para alimentar um esprito: ele sustentou e
sustenta civilizaes inteiras. No se nega a guerra. Tem de se
morrer ou viver com ela. De igual modo o absurdo: trata-se de
respirar com ele, de reconhecer suas lies e redescobrir sua carne.
Quanto a isso, a alegria absurda por excelncia  a criao. "A arte
e nada alm da arte," diz Nietzsche; "temos a arte para no sermos
mortos pela verdade".
Na experincia que tento descrever e fazer sentir de diversos
modos,  certo que aparece um tormento em cada ponto em que
morre outro. A busca pueril do esquecimento, o apelo da satisfao
ficam agora sem eco. Mas a tenso constante que mantm o
homem diante do mundo, o delrio organizado que o impele a
acolher tudo lhe deixam uma outra febre. Nesse universo, a obra 
ento a nica possibilidade de se manter a conscincia e se fixar
em suas aventuras. Criar  viver duas vezes. A busca tateante e
ansiosa de um Proust, sua meticulosa coleo de flores, de
tapearias e de angstias no significam outra coisa. Ao mesmo
tempo, ela no tem outra perspectiva seno a criao contnua e
inestimvel a que se entregam, todos os dias de sua vida, o
comediante, o conquistador e todos os homens absurdos. Todos se
empenhavam em imitar, repetir e recriar a realidade deles. Ns
acabamos sempre ficando com a cara das nossas verdades. A
existncia inteira, para um homem que se desviou do eterno,  to-
somente um mimo desmesurado sob a mscara do absurdo. E esse
grande mimo  a criao.
Antes de tudo, esses homens sabem, e seu esforo, depois,  de
percorrer, ampliar e enriquecer a ilha sem futuro em que acabam de
aportar. Mas  preciso, antes de tudo, saber. Porque a descoberta
absurda coincide com um momento em que se pra, elaborando e
legitimando as paixes futuras. At os homens sem evangelho tm
o seu monte das Oliveiras. E tambm sobre o deles no se deve
adormecer. Para o homem absurdo, j no se trata de explicar e
resolver, mas de experimentar e descrever. Tudo comea pela
indiferena lcida.
Descrever, eis a ltima ambio de um pensamento absurdo.
Tambm a cincia, tendo chegado ao fim de seus paradoxos, cessa
de propor e pra a fim de contemplar e desenhar a paisagem
sempre virgem dos fenmenos. O corao, assim, aprende que
essa emoo que nos arrebata diante dos rostos do mundo no nos
vem de sua profundeza, mas de sua diversidade. A explicao 
intil, mas a sensao permanece e, com ela, os apelos
incessantes de um universo inesgotvel em quantidade.
Compreende-se, agora, o lugar da obra de arte.
Ela marca ao mesmo tempo a morte de uma experincia e sua
multiplicao.  como uma repetio montona e apaixonada dos
temas j orquestrados pelo mundo: o corpo, inesgotvel imagem no
fronto dos templos, as formas ou as cores, o nmero ou o
desgosto. Portanto no  indiferente, para terminar, reencontrar os
principais temas deste ensaio no universo magnfico e infantil do
criador. No seria certo ver um smbolo nisso e acreditar que a obra
de arte possa ser considerada, afinal, como um refgio para o
absurdo. Ela  em si mesma um fenmeno absurdo e s tratamos
de sua descrio. Ela no oferece uma sada  doena do esprito.
, ao contrrio, um dos signos dessa doena que a faz repercutir
em todo o pensamento de um homem. Mas pela primeira vez ela
induz o esprito a sair de si mesmo e o situa diante de outrem, no
para que se perca nisso, mas para lhe mostrar com um dedo
preciso o caminho sem sada a que todos esto ligados. No tempo
do raciocnio absurdo, a criao acompanha a indiferena e
descoberta. Ela fixa o ponto de onde as paixes absurdas se atiram,
e em que o raciocnio pra. Assim se justifica o seu lugar neste
ensaio.
Bastar trazer  tona alguns temas comuns ao criador e ao
pensador para que reencontremos na obra de arte todas as
contradies do pensamento comprometido com o absurdo.
Efetivamente, o parentesco das inteligncias se faz menos atravs
de concluses idnticas do que de contradies que lhes so
comuns. Assim tambm o pensamento e a criao. Nem precisaria
dizer que  um mesmo tormento que impele o homem a essa
atitudes.  nisso que elas coincidem logo de sada. Mas, entre
todos os pensamentos que partem do absurdo, vi que muito poucos
se mantm nele. E  em suas separaes ou suas infidelidades que
melhor medi o que s pertencia ao absurdo. Paralelamente, devo
me perguntar:  possvel uma obra absurda?
Nunca seria demais insistir no arbitrrio da antiga oposio entre
arte e filosofia. Caso se queira entend-la em sentido estrito, ela 
inequivocamente falsa. Caso somente se queira dizer que essas
duas disciplinas tm, cada uma, seu clima particular, isso  sem
dvida verdadeiro, mas muito vago. A nica argumentao aceitvel
residia na contradio suscitada entre o filsofo fechado no meio de
seu sistema e o artista colocado diante de sua obra. Mas isso valia
para uma certa forma de arte e de filosofia que ns, agora,
consideramos secundria. A idia de uma arte separada de seu
criador no se acha apenas fora de moda.  falsa. Por oposio ao
artista, observa-se que nunca nenhum filsofo fez diversos
sistemas. Mas isso  verdadeiro na mesma proporo em que
nunca nenhum artista exprimiu mais que uma s coisa sob
diferentes faces. A perfeio instantnea da arte, a necessidade de
sua renovao, isso s  verdadeiro por preconceito. Porque a obra
de arte tambm  uma construo e todos sabem como os grandes
criadores podem ser montonos. O artista, pela mesma razo que o
pensador, se compromete e se transforma na sua obra. Essa
osmose suscita o mais importante dos problemas estticos. Por fim,
no h nada mais intil do que essas distines segundo os
mtodos e os objetos para quem se persuade da unidade de
propsito do esprito. No h fronteiras entre as disciplinas que o
homem se apresenta para compreender e amar. Elas se
interpenetram e a mesma angstia as confunde.
 necessrio dizer isso para comear. Para que seja possvel uma
obra absurda,  preciso que o pensamento esteja amalgamado com
ela em sua mais lcida forma. Mas  preciso, ao mesmo tempo, que
ele no aparea nela seno como a inteligncia que organiza. Esse
paradoxo se explica de acordo com o absurdo. A obra de arte nasce
da renncia da inteligncia a raciocinar sobre o concreto. Ela
assinala o triunfo do carnal.  o pensamento lcido que a origina,
mas nesse prprio ato ela se desprende. No ceder  tentao de
sobrepor ao descrito um sentido mais profundo que ela sabe
ilegtimo. A obra de arte encarna um drama da inteligncia, mas s
indiretamente apresenta a sua prova. A obra absurda exige um
artista consciente desses limites e uma arte em que o concreto no
significa nada mais do que ele prprio. Ela no pode ser o fim, o
sentido e a consolao de uma vida. Criar ou no criar, isso no
altera nada. O criador absurdo no depende de sua obra. Poderia
renunciar a ela. Algumas vezes renuncia. Basta uma Abissnia.
Pode-se ver a, ao mesmo tempo, uma norma de esttica. A
verdadeira obra de arte  sempre proporcional ao homem. 
essencialmente aquela que diz "menos". H certa relao entre a
experincia global de um artista e a obra que a reflete, entre
Wilhelm Meister e a maturidade de Goethe. Essa relao  m
quando a obra pretende dar toda a experincia no papel filigranado
de uma literatura de explicao. Essa relao  boa quando a obra
s  um fragmento recortado na experincia, uma faceta do
diamante em que o claro interior se resume sem se limitar. No
primeiro caso, h sobrecarga e pretenso ao eterno. No segundo,
obra fecunda por causa de todo um subentendido de experincia
cuja riqueza se adivinha. O problema, para artista o absurdo, 
adquirir esse conhecimento da vida que ultrapassa a habilidade do
fazer. Para terminar, o grande artista sob esse clima  acima de
tudo um homem que vive intensamente, compreendendo-se que,
nesse caso,  tanto experimentar como refletir. A obra, portanto,
encarna um drama intelectual. A obra absurda ilustra a renncia do
pensamento a seus encantos e sua resignao a no ser mais do
que a inteligncia que converte em trabalho as aparncias e cobre
de imagens o que no  racional. Se o mundo fosse claro, a arte
no o seria.
No falo aqui das artes da forma ou da cor em que s reina a
descrio em sua esplndida modstia.xxiii A expresso comea
onde o pensamento acaba. Foi toda colocada em gestos a filosofia
desses adolescentes de olhos vazios que povoam os templos e os
museus. Para um homem absurdo, ela  mais esclarecedora que
todas as bibliotecas. Sob um outro aspecto, acontece o mesmo com
a msica. Se uma arte  destituda de ensinamento,  exatamente
isso. Ela se aparenta muito com as matemticas para no lhes ter
tomado emprestado a gratuidade. Esse jogo do esprito consigo
mesmo segundo leis estipuladas e medidas se desenrola no espao
sonoro que  o nosso e alm do qual as vibraes, no entanto, se
reencontram num universo inumano. No pode haver sensao
mais pura. Esses exemplos so bastante fceis. O homem absurdo
reconhece como suas essas harmonias e essas formas.
Mas eu gostaria de falar, agora, de uma obra em que a tentao de
explicar permanece a maior de todas, em que a iluso  em si
mesma intencional e em que a concluso  quase infalvel. Refiro-
me  criao romanesca. Terei de me perguntar se o absurdo pode
se manter nela.
Pensar , antes de tudo, querer criar um mundo (ou limitar o seu, o
que vem a dar no mesmo).  partir do desacordo fundamental que
separa o homem de sua experincia para encontrar um terreno de
interpretao conforme sua nostalgia, um universo espartilhado de
razes ou aclarado de analogias que permite resolver o divrcio
insuportvel. O filsofo, mesmo se for Kant,  criador. Tem os seus
personagens, seus smbolos e sua ao secreta. Como tem seus
desenlaces. Inversamente, o passo adotado pelo romance em
relao  poesia e ao ensaio representa apenas, e apesar das
aparncias, uma intelectualizao maior da arte. Entendamos bem,
trata-se sobretudo dos maiores. A fecundidade e a grandeza de um
gnero se medem, freqentemente, com o descrdito em que se
encontra. A quantidade de maus romances no deve fazer esquecer
a grandeza dos melhores. So exatamente estes que trazem com
eles seu universo. O romance tem sua lgica, seus raciocnios, sua
intuio, seus postulados. Tambm tem suas exigncias de
clareza.xxiv
A oposio clssica de que eu falava acima se legitima ainda
menos nesse caso particular. Ela valia no tempo em que era fcil
separar a filosofia de seu autor. Hoje, quando o pensamento j no
pretende o universal, quando sua melhor histria seria a de seus
arrependimentos, sabemos que o sistema, quando  vlido, no se
separa de seu autor. A prpria tica, em um de seus aspectos, no
passa de uma longa e rigorosa coincidncia. O pensamento
abstrato redescobre, enfim, o seu apoio na carne. E de igual modo
os jogos romanescos do corpo e das paixes se organizam um
pouco mais segundo uma viso do mundo. J no se contam
histrias: cria-se o seu universo. Os grandes romancistas so
romancistas filsofos, isto , o contrrio dos escritores de tese.
Assim Balzac, Sade, Melville, Stendhal, Dostoivski, Proust,
Malraux, Kafka, para s citar alguns deles.
Mas justamente a escolha que eles fizeram de escrever mais em
imagens do que em raciocnios  indicadora de um certo
pensamento que lhes  comum, persuadido da inutilidade de todo
princpio de explicao e convencido da elucidativa mensagem da
aparncia sensvel. Eles consideram a obra ao mesmo tempo como
um fim e um comeo. Ela  o resultado de uma filosofia
freqentemente inexpressa, sua ilustrao e seu coroamento. Mas
s se completa pelos subentendidos dessa filosofia. Legitima, enfim,
essa variante de um tema antigo pelo qual um pouco de
pensamento afasta da vida mas muito leva de volta a ela. Incapaz
de sublimar o real, o pensamento se detm imitando-o. O romance
de que estamos tratando  o instrumento desse conhecimento ao
mesmo tempo relativo e inesgotvel, to semelhante ao do amor.
Do amor, a criao romanesca tem a admirao inicial e a
ruminao fecunda.
So pelo menos os encantos que eu logo de sada lhe reconheo.
Mas tambm os reconhecia nesses princpios do pensamento
humilhado que pude contemplar depois dos suicidas. O que me
interessa, exatamente,  reconhecer e descrever a fora que os
leva de volta ao caminho comum da iluso. O mesmo mtodo, pois,
me servir aqui. T-lo j utilizado me permitir sintetizar o meu
raciocnio e resumi-lo sem me demorar em exemplo estreito. Quero
saber se, aceitando viver sem apelao, pode-se tambm consentir
em trabalhar e criar sem apelao, e qual  a estrada que leva a
essas liberdades. Quero livrar meu universo de seus fantasmas e
povo-lo apenas das verdades de carne cuja presena no posso
negar. Eu posso fazer obra absurda, escolher a atitude criativa em
vez de uma outra. Mas para uma atitude absurda permanecer como
tal tem de ficar consciente da sua gratuidade. De igual modo a obra.
Se as exigncias do absurdo no so nela respeitadas, se ela no
ilustra o divrcio e a revolta, se se conforma s iluses e desperta a
esperana, j no  gratuita. No posso mais me separar dela.
Minha vida pode encontrar ali um sentido: isso  desprezvel. Ela j
no  esse exerccio de desligamento e de paixo que consome o
esplendor e a inutilidade de uma vida humana.
Na criao em que a tentao de explicar  a mais forte, pode-se
assim sobrepor essa tentao? No mundo fictcio em que a mais
forte conscincia  a do mundo real, posso continuar fiel ao absurdo
sem me abandonar ao desejo de concluir? Tantas perguntas a
encarar em um ltimo esforo. J compreendemos o que elas
significavam. So os ltimos escrpulos de uma conscincia que
teme deixar de lado seu primeiro e difcil ensinamento ao preo de
uma ltima iluso. O que vale para a criao, considerada como
uma das atitudes possveis para o homem consciente do absurdo,
vale para todos os estilos de vida que se lhe oferecem. O
conquistador ou o ator, o criador ou Don Juan podem esquecer que
seu exerccio de viver no saberia ir adiante sem a conscincia de
seu carter insensato. As pessoas se habituam muito depressa.
Querem ganhar dinheiro para viver felizes, e o mximo esforo, o
melhor de uma vida se concentram nesse ganho. A felicidade 
esquecida, o meio tomado como fim. De igual modo todo o esforo
desse conquistador vai se desviar para a ambio que s era um
caminho para uma vida maior. Don Juan, de sua parte, tambm vai
concordar com o seu destino, se satisfazer com essa existncia cuja
grandeza s vale pela revolta. Para um,  a conscincia, para o
outro, a revolta: em ambos os casos o absurdo desapareceu. H
tanta esperana insistente no corao humano. Os homens mais
espoliados acabam, algumas vezes, consentindo na iluso. Essa
aprovao ditada pela necessidade de paz  o irmo interior do
consentimento existencial. Assim, h deuses de luz e dolos de
lama. Mas  o caminho mdio que leva aos rostos do homem que
temos de encontrar.
At agora so os fracassos da exigncia absurda que mais nos
ensinaram a respeito dela. Do mesmo modo, para estarmos
prevenidos, nos bastar perceber que a criao romanesca pode
oferecer a mesma ambigidade que certas filosofias. Posso
escolher, portanto, para minha ilustrao, uma obra em que esteja
reunido tudo o que marca a conscincia do absurdo e em que o
ponto de partida seja claro, o clima lcido. Suas conseqncias nos
instruiro. Se o absurdo no foi ali respeitado, saberemos por que
vis a iluso se introduz. Um exemplo preciso, um tema, uma
fidelidade de criador bastaro. Trata-se da mesma anlise que j foi
feita mais extensamente.
Examinarei um tema favorito de Dostoivski. Assim como poderia
estudar outras obras.xxv Mas com aquela o problema  tratado
diretamente, no sentido da grandeza e da emoo, como para os
pensamentos existenciais de que nos ocupamos. Esse paralelismo
serve ao meu objeto.


       Kirlov


Todos os heris de Dostoivski se interrogam sobre o sentido da
vida.  nisso que eles so modernos: no temem o ridculo. O que
distingue a sensibilidade moderna da sensibilidade clssica  que
esta se nutre de problemas morais e aquela de problemas
metafsicos. Nos romances de Dostoivski a questo  apresentada
com uma tal intensidade que s pode levar a solues extremas. A
existncia  mentirosa ou ela  eterna. Se Dostoivski se
satisfizesse com esse exame, seria filsofo. Mas ele ilustra as
conseqncias que esses jogos do esprito podem ter numa vida
humana e  nisso que ele  artista. Entre tais conseqncias,  a
ltima que o retm aquela que ele prprio, no Dirio de um escritor,
chamou de suicdio lgico. Nas folhas j prontas em dezembro de
1876 ele de fato imagina o raciocnio do "suicdio lgico".
Persuadido de que a existncia humana  uma perfeita absurdidade
para quem no tem a f na imortalidade, o desesperado chega s
seguintes concluses:
"Uma vez que, s minhas questes a respeito da felicidade, ele me
declarou em resposta, por intermdio da minha conscincia, que eu
no posso ser feliz de outra maneira seno nessa harmonia com o
grande todo, que no concebo e no estarei nunca em estado de
conceber, evidentemente (...)
"(...) Uma vez que, enfim, nessa ordem das coisas, assumo ao
mesmo tempo o papel da acusao e o da defesa, do ru e do juiz,
e uma vez que acho essa comdia por parte da natureza
inteiramente estpida e que at considero humilhante da minha
parte aceitar trabalhar nela (...)
"Na minha qualidade indiscutvel de acusador e defensor, de juiz e
ru, condeno essa natureza que, com uma to impudente sem-
cerimnia, me fez nascer para sofrer - eu a condeno a ser
aniquilada junto comigo."
H ainda um ponto de humor nessa posio. Esse suicida se mata
porque, no plano metafsico, ele est vexado. Em certo sentido, ele
se vinga.  a sua maneira de provar que "no o apanharo". Sabe-
se, porm, que o mesmo tema se encarna, mas com a amplitude
mais admirvel, em Kirlov, personagem de Os possessos, outro
partidrio do suicdio lgico. O engenheiro Kirlov declara em algum
lugar que quer acabar com a vida porque " sua idia". Entende-se
bem que  preciso tomar a palavra na acepo apropriada.  por
uma idia, um pensamento que ele se prepara para a morte.  o
suicdio superior. Progressivamente, ao longo de muitas cenas em
que a mscara de Kirlov se aclara pouco a pouco, o pensamento
mortal que a anima nos  exposto. O engenheiro, de fato, retoma os
raciocnios do Dirio. Sente que Deus  necessrio e que  preciso
demais que ele exista. Mas sabe que ele no existe e que no pode
existir. "Como voc no compreende", exclama, "que a existe uma
razo suficiente para se matar?" Essa atitude acarreta igualmente
para ele algumas das conseqncias absurdas. Ele aceita, por
indiferena, deixar utilizar seu suicdio em proveito de uma causa
que despreza. "Esta noite decidi que isso no me importava."
Prepara o gesto, afinal, com um sentimento mesclado de revolta e
liberdade: "Vou me matar para afirmar a minha insubordinao, a
minha nova e terrvel liberdade." No se trata mais de vingana,
mas de revolta. Kirlov, portanto,  um personagem absurdo - com
essa reserva essencial, todavia, de que se mata. Mas ele prprio
explica essa contradio, e de tal modo que revela ao mesmo
tempo o segredo absurdo em toda a sua pureza. Acrescenta
realmente  sua lgica mortal uma ambio extraordinria que d
ao personagem toda a sua perspectiva: quer se matar para virar
deus.
O raciocnio  de uma clareza clssica. Se Deus no existe, Kirlov
 deus. Se Deus no existe, Kirlov deve se matar. Kirlov, portanto,
deve se matar para ser deus. Essa lgica  absurda, mas  o que
se precisa. Todavia, o interessante  dar um sentido a essa
divindade reconduzida  terra. Isso volta a esclarecer a premissa:
"Se Deus no existe, eu sou deus", que ainda fica bastante obscura.
 importante observar, antes de tudo, que o homem que apregoa
essa pretenso insensata  bem deste mundo. Faz ginstica todas
as manhs para cuidar da sade. Comove-se com a alegria de
Chtov reencontrando a mulher. Num papel que se acha depois de
sua morte, pretende desenhar uma figura que "lhes" bota a lngua
de fora.  pueril e colrico, apaixonado, metdico e sensvel. Do
super-homem s tem a lgica e a idia fixa, do homem todo o
registro.  ele, no entanto, que fala tranqilamente de sua
divindade. No  louco, ou ento Dostoivski o . No  pois uma
iluso de megalmano que o agita. E tomar as palavras no sentido
prprio seria ridculo, desta vez.
O prprio Kirlov nos ajuda a compreender melhor. Sobre um
problema de Stavrguin ele esclarece que no fala de um deus-
homem. Poderamos pensar que  pela preocupao de se
distinguir do Cristo. Mas trata-se, na verdade, de anex-lo. Kirlov
efetivamente imagina um momento em que Jesus, morrendo, no
se tornou a achar no paraso. Descobriu, ento, que sua tortura
tinha sido intil. "As leis da natureza", diz o engenheiro, "fizeram o
Cristo viver no meio da mentira e morrer por uma mentira". Apenas
nesse sentido, Jesus encarna claramente todo o drama humano. 
o homem-perfeito, sendo o que realizou a condio mais absurda.
No  o deus-homem, mas o homem-deus. Como ele, cada um de
ns pode ser crucificado e ludibriado - e o , numa certa medida.
A divindade de que se trata , portanto, completamente terrena.
"Procurei durante trs anos", diz Kirlov, "o atributo da minha
divindade e o encontrei. O atributo da minha divindade  a minha
independncia". Percebe-se, da em diante, o sentido da premissa
kiriloviana: "Se Deus no existe, eu sou deus." Tornar-se deus 
apenas ser livre sobre esta terra, no servir um ser imortal. 
sobretudo, indiscutivelmente, extrair todas as conseqncias dessa
dolorosa independncia. Se Deus existe, tudo depende dele e ns
nada podemos contra a sua vontade. Se no existe, tudo depende
de ns. Para Kirlov, como para Nietzsche, matar Deus  converter-
se a si prprio em deus -  realizar nesta terra a vida eterna de que
falam os Evangelhos.xxvi
Mas se esse crime metafsico  suficiente  realizao do homem,
por que acrescentar a o suicdio? Por que se matar, deixar este
mundo aps ter conquistado a liberdade? Isso  contraditrio.
Kirlov bem o sabe, acrescentando: "Se voc sente isso, voc  um
czar e, longe de se matar, viver no auge da glria." Mas os
homens no o sabem, no sentem "isso". Como no tempo de
Prometeu, alimentam neles esperanas cegas.xxvii Tm necessidade
de que se lhes mostre o caminho e no podem abrir mo da
pregao. Kirlov, portanto, deve se matar por amor da humanidade.
Deve mostrar a seus irmos uma estrada real e difcil na qual ele
ser o primeiro.  um suicdio pedaggico. Kirlov, portanto, se
sacrifica. Mas, se ele for crucificado, no ser ludibriado.
Permanece homem-deus, convencido de uma morte sem futuro,
impregnado da melancolia evanglica. "Eu", afirma, "sou infeliz
porque sou obrigado a afirmar minha liberdade". Mas com ele
morto, os homens finalmente esclarecidos, esta terra se povoar de
czares e se iluminar da glria humana. O tiro de pistola de Kirlov
ser o sinal da ltima revoluo. No , assim, o desespero que o
impele  morte, mas o amor ao prximo como a si mesmo. Antes de
encerrar com sangue uma indizvel aventura espiritual, Kirlov tem
uma palavra to velha quanto o sofrimento dos homens:
"Est tudo bem."
Esse tema do suicdio em Dostoivski  ento claramente um tema
absurdo. Observemos apenas, antes de ir mais longe, que Kirlov
repercute em outros personagens que implicam eles prprios novos
temas absurdos. Stavrguin e Iv Karamzov experimentam na vida
prtica o exerccio de verdades absurdas. So eles que a morte de
Kirlov liberta. Tentam ser czares. Stavrguin leva uma vida
"irnica", sabe-se bem qual. Faz-se erguer o dio em torno dele. E,
no entanto, a palavra-chave desse personagem est em sua carta
de despedida: "Eu no pude detestar nada."  czar na indiferena.
Iv tambm o , recusando-se a abdicar os poderes reais do
esprito. queles que, como seu irmo, provam com sua vida que 
preciso humilhar-se para crer, poderia responder que a condio 
indigna.
Sua palavra-chave  o "Tudo , permitido", com o toque de tristeza
que lhe convm. E claro que, como Nietzsche, o mais clebre dos
assassinos de Deus, ele acabou na loucura. Mas  um risco que se
corre e, diante desses fins trgicos, a propenso essencial do
esprito absurdo  a de perguntar: "O que  que isso prova?"
Desse modo os romances, como o Dirio, apresentam a questo
absurda. Implantam a lgica at a morte, a exaltao, a liberdade
"terrvel", a glria dos czares tornada inumana. Tudo est bem, tudo
 permitido e nada  detestvel: so julgamentos absurdos. Mas
que prodigiosa criao aquela em que esses seres de fogo e gelo
nos parecem to familiares! O mundo apaixonado da indiferena
que resmunga no fundo do corao no nos parece em nada
monstruoso. Reencontramos a nossas angstias cotidianas. E sem
dvida ningum, como Dostoivski, soube dar ao mundo absurdo
sortilgios to prximos e to supliciantes.
No entanto, qual  a sua concluso? Duas citaes mostraro o
completo desabamento metafsico que leva o escritor a outras
revelaes. Como o raciocnio do suicida lgico provocou alguns
protestos dos crticos, Dostoivski, nas folhas do Dirio que
aprontou em seguida, desenvolve sua posio e conclui: "Se a f na
imortalidade  to necessria ao ser humano (que sem ela chega a
ponto de se matar),  porque ela  o estado normal da humanidade.
Visto que isso acontece, a imortalidade da alma humana existe sem
dvida nenhuma." Alm disso, nas ltimas pginas de seu ltimo
romance ao fim dessa gigantesca batalha com Deus, umas crianas
perguntam a Alicha: "Karamzov,  verdade o que diz a religio,
que ressuscitaremos dentre os mortos, que nos reveremos uns aos
outros?" E Alicha responde: "Claro, ns nos reveremos e nos
contaremos de novo, alegremente, tudo o que se passou."
Assim Kirlov, Stavrguin e Iv so vencidos. Os Karamzovi
respondem a Os possessos e trata-se mesmo de uma concluso. O
caso Alicha no  ambguo como o do prncipe Mchkin. Enfermo,
este ltimo vive num perptuo presente, matizado de sorrisos e
indiferena, e esse estado de bem-aventurana poderia ser a vida
eterna de que fala o prncipe. Alicha, ao contrrio, bem o diz: "Ns
nos reencontramos." No  mais uma questo de suicdio e de
loucura. Com que proveito, para quem est certo de imortalidade e
de suas alegrias? O homem faz a troca de sua dignidade pelo ser
feliz. "Ns nos contaremos de novo, alegremente, tudo o que se
passou." Ainda assim, a pistola de Kirlov ressoou em algum lugar
da Rssia, mas o mundo continuou a rolar suas cegas esperanas.
Os homens no compreenderam "isso".
No  pois um romancista absurdo que nos fala, mas um
romancista existencial. Ainda aqui o salto  comovedor, d a sua
grandeza  arte que o inspira.  uma adeso tocante, repleta de
dvidas, incerta e ardente. Falando dos Karamzovi, Dostoivski
escrevia: "A principal questo a ser perseguida em todas as partes
desse livro  aquela mesma com que sofri, consciente ou
inconscientemente, em toda a minha vida: a existncia de Deus." 
difcil acreditar que um romance tenha bastado para transformar em
certeza feliz o sofrimento de uma vida inteira. Um estudiosoxxviii o
assinala com razo: Dostoivski est mais ligado  parte de Iv e os
captulos afirmativos dos Karamzovi lhe tomaram trs meses de
trabalho enquanto o que ele chamava "as blasfmias" foram
compostas em trs semanas e em exaltao. No h sequer um de
seus personagens que no traga esse espinho na carne, que no o
exaspere ou que no busque um remdio para isso nos sentidos ou
na imortalidade.xxix Demoremo-nos, em todo o caso, nessa dvida.
Eis uma obra em que, num claro-escuro mais impressionante que a
luz do dia, podemos acompanhar a luta do homem contra suas
esperanas. No fim da linha, o criador escolhe em desfavor de seus
personagens. Tal contradio nos permite, desse modo, inserir uma
gradao. No  de uma obra absurda que tratamos, mas de uma
obra que apresenta o problema absurdo.
A resposta de Dostoivski  a humilhao  "vergonha" conforme
Stavrguin. Uma obra absurda, ao contrrio, no oferece resposta,
eis a toda a diferena. Observemo-lo bem, para terminar: o que
contradiz o absurdo nessa obra no  o seu carter cristo, mas o
anunciar a vida futura. Pode-se ser cristo e absurdo. H exemplos
de cristos que no crem na vida futura. A respeito da obra de
arte, seria possvel, portanto, precisar uma das direes da anlise
absurda que se pde pressentir nas pginas precedentes. Ela leva
a se propor "a absurdidade dos Evangelhos". Ela aclara essa idia,
frtil em desdobramentos, de que as convices no impedem a
incredulidade. V-se bem, ao contrrio, que o autor de Os
possessos, familiarizado com esses caminhos, enveredou, no final,
por outro muito diferente. A surpreendente resposta do criador a
seus personagens, de Dostoivski a Kirlov, pode realmente ser
assim resumida: a existncia  mentirosa e ela  eterna.


       A criao sem amanh


Descubro, agora, por conseguinte, que a esperana no pode ser
evitada para sempre e que pode assaltar at aqueles que
supunham estar livres dela.  o interesse que encontro nas obras
de que cuidamos at o momento. Eu poderia, pelo menos no campo
da criao, enumerar algumas obras verdadeiramente absurdas.xxx
Mas em tudo  necessrio um comeo. O objeto desta pesquisa 
uma certa fidelidade. A Igreja s tem sido to dura para com os
hereges porque achava que no h pior inimigo do que um filho
desgarrado. Mas a histria das ousadias gnsticas e a persistncia
das correntes maniquias fizeram mais, para a construo do
dogma ortodoxo, do que todas as preces. Guardadas as devidas
propores, acontece o mesmo com o absurdo. Reconhece-se a
sua trilha descobrindo os caminhos que se afastam dele. Na prpria
concluso do raciocnio absurdo, numa das atitudes ditadas por sua
lgica, no  ocioso reencontrar a esperana insinuada ainda sob
uma de suas faces mais patticas. Isso mostra a dificuldade da
ascese absurda. Mostra, principalmente, a necessidade de se
manter uma incessante conscincia e rearticula o quadro geral
deste ensaio.
Mas se ainda no se trata de enumerar as obras absurdas, pode-se
ao menos concluir a propsito da atitude criativa, uma daquelas
capazes de completar a existncia absurda. A arte s pode ser to
bem servida por um pensamento negativo. Seus procedimentos
obscuros e humilhados so to necessrios  inteligncia de uma
grande obra quanto o preto o  para o branco. Trabalhar e criar
"para nada", esculpir com barro, saber que sua criao no tem
futuro, ver sua obra destruda em um dia, consciente de que, em
profundidade, isso no tem mais importncia do que edificar para
sculos - eis a difcil sabedoria que o pensamento absurdo
preconiza. Levar adiante simultaneamente essas duas tarefas,
negar de um lado e exaltar do outro,  a trilha que se abre para o
criador absurdo. Ele tem de lanar suas cores no vazio.
Isso leva a uma concepo particular da obra de arte. Considera-se
com bastante freqncia a obra de um criador como uma sucesso
de testemunhos isolados. Confunde-se .ento artista e literato. Um
pensamento profundo est em contnuo devir, esposa a experincia
de uma vida e se amolda a ela. Do mesmo modo, a criao nica
de um homem se fortalece nas faces mltiplas e sucessivas que
so suas obras. Umas completam as outras, corrigem-nas ou as
recuperam, contradizem-nas tambm. Se alguma coisa termina a
criao, no  o grito vitorioso e ilusrio do artista que se cega - "Eu
disse tudo" - mas a morte do criador que encerra a sua experincia
e o liberta de seu gnio.
Esse esforo, essa conscincia sobre-humana, no aparecem
necessariamente ao leitor. No h mistrio na criao humana. A
vontade faz esse milagre. Mas pelo menos no existe verdadeira
criao sem segredo. Sem dvida uma srie de obras pode ser
apenas uma seqncia de tentativas do mesmo pensamento. Mas
pode-se conceber uma outra espcie de criadores que procederiam
por justaposio. Suas obras podem parecer sem relao entre si.
Em certa medida, so contraditrias. Mas, recolocadas em seu
conjunto, recobram sua disposio.  da morte, ento, que elas
recebem o sentido definitivo. Ganham o que h de mais claro em
sua luz da prpria vida do seu autor. Nesse momento, a sucesso
de suas obras no passa de uma coleo de fracassos. Mas, se
esses fracassos mantm todos a mesma ressonncia, o criador
soube repetir a imagem de sua prpria condio, fazer retinir o
segredo estril de que  detentor.
O esforo pela dominao passa a ser considervel. Mas a
inteligncia humana pode ser suficiente para muito mais. Ela
somente demonstrara o aspecto voluntrio da criao. Eu procuro
ressaltar, alhures, que a vontade humana no tinha outro fim que o
de sustentar a conscincia. Mas isso no poderia funcionar sem
disciplina. De todas as escolas da pacincia e da lucidez, a criao
 a mais eficiente.  tambm desconcertante testemunho da nica
dignidade do homem: a revolta obstinada contra a sua condio, a
perseverana em um esforo tido como estril. Ela exige um esforo
cotidiano, o domnio de si mesmo, a apreciao exata dos limites do
verdadeiro, a medida e a fora. Constitui uma ascese. Tudo isso
"para nada", para repetir e bater o p. Mas talvez a grande obra de
arte tenha menos importncia em si mesma do que na experincia
que exige de um homem, na oportunidade que lhe propicia para
superar seus fantasmas e chegar um pouco mais perto de sua
realidade nua.
Que no nos enganemos de esttica. No  a informao paciente,
a incessante e estril ilustrao de uma tese que eu invoco aqui.
Bem ao contrrio, se me expliquei claramente. O romance de tese,
a obra que prova, a mais odiosa de todas,  a que mais
freqentemente se inspira num pensamento satisfeito. A verdade
que se acredita deter  o que se demonstra. Mas esto ali idias
que se pem em marcha e as idias so o contrrio do
pensamento. Esses criadores so filsofos envergonhados. Aqueles
de que falo ou que imagino so, ao contrrio, pensadores lcidos.
Em certo ponto em que o pensamento se volta sobre si mesmo,
eles levantam as imagens de suas obras como os smbolos
evidentes de um pensamento limitado, mortal e revoltado.
Elas talvez provem alguma coisa. Mas essas provas os romancistas
mais se do do que as fornecem. O essencial  que triunfam no
concreto e que  esta a sua grandeza. Esse triunfo todo carnal lhes
foi preparado por um pensamento em que os poderes abstratos
foram humilhados. Quando estes o so inteiramente, a carne no
mesmo instante faz brilhar a criao em todo o seu esplendor
absurdo. So os filsofos irnicos que fazem as obras apaixonadas.
Todo pensamento que renuncia  unidade exalta a diversidade. E a
diversidade  o lugar da arte. O nico pensamento que liberta o
esprito  aquele que o deixa s, certo de seus limites e de seu fim
prximo. Nenhuma doutrina o solicita. Ele espera o amadurecimento
da obra e da vida. Destacada dele, a primeira far ouvir uma vez
mais a voz mal ensurdecida de uma alma para sempre livre da
esperana. Ou ela no far ouvir nada, se o criador, cansado de
seu jogo, prefere se desviar. D no mesmo.
Peo assim  criao absurda o que eu exigia do pensamento, da
revolta, da liberdade e da diversidade. Ela, em seguida, manifestar
sua profunda inutilidade. Nesse esforo cotidiano em que a
inteligncia e a paixo se misturam e se arrebatam, o homem
absurdo descobre uma disciplina que formar o essencial de suas
foras. A aplicao, a tenacidade e a perspiccia necessrias
redescobrem desse modo a atitude conquistadora. Criar, assim, 
dar uma forma ao seu destino. Todos esses personagens so pelo
menos to definidos pela obra quanto esta por eles. O comediante
no-lo ensinou. No h fronteira entre o parecer e o ser.
Repitamo-lo: nada disso tem sentido real. No caminho dessa
liberdade h ainda um progresso a fazer. O ltimo esforo para
esses espritos afins, criador ou conquistador,  o de tambm saber
se libertar de seus cometimentos: chegar a admitir que a prpria
obra, seja de conquista, amor ou criao, pode no ser; consumir
assim a profunda inutilidade de toda a vida individual. Isso mesmo
lhes d mais desembarao na realizao dessa obra, como a
percepo da absurdidade da vida os autorizava a mergulhar ali
com todos os excessos.
O que resta  um destino de que s a sada  fatal. Fora dessa
nica fatalidade da morte, tudo, alegria ou felicidade, est liberto.
Permanece um mundo de que o homem  o nico senhor. O que o
prendia era a iluso de um outro mundo. A inclinao de seu
pensamento no  mais a de renunciar, mas a de explodir em
imagens. Ele se representa em mitos, no h dvida, mas mitos
sem outra profundidade que a da dor humana e, como esta,
inesgotveis. No a fbula divina que diverte e cega, mas o rosto, o
gesto e o drama terrenos em que se resumem uma difcil sabedoria
e uma paixo sem amanh.
                   O MITO DE SSIFOxxxi

Os deuses tinham condenado Ssifo a rolar um rochedo
incessantemente at o cimo de uma montanha, de onde a pedra
caa de novo por seu prprio peso. Eles tinham pensado, com as
suas razes, que no existe punio mais terrvel do que o trabalho
intil e sem esperana.
Se acreditarmos em Homero, Ssifo era o mais sbio e mais
prudente dos mortais. Segundo uma outra tradio, porm, ele tinha
queda para o ofcio de salteador. No vejo a contradio. Diferem
as opinies sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador
intil dos infernos. Reprovam-lhe, antes de tudo, certa leviandade
para com os deuses. Espalhou os segredos deles. Egina, filha de
Asopo, foi raptada por Jpiter. O pai, abalado por esse
desaparecimento, se queixou a Ssifo. Este, que tomara
conhecimento do rapto, ofereceu a Asopo orient-lo a respeito, com
a condio de que fornecesse gua  cidadela de Corinto. s
cleras celestes ele preferiu a bno da gua. Foi punido por isso
nos infernos. Homero nos conta ainda que Ssifo acorrentara a
Morte. Pluto no pde tolerar o espetculo de seu imprio deserto
e silencioso. Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das
mos de seu vencedor.
Diz-se tambm que Ssifo, estando prestes a morrer,
imprudentemente quis por  prova o amor de sua mulher. Ele lhe
ordenou jogar o seu corpo insepulto em plena praa pblica. Ssifo
se recobrou nos infernos. Ali, exasperado com uma obedincia to
contrria ao amor humano, obteve de Pluto o consentimento para
voltar  terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pde
rever a face deste mundo, provar a gua e o sol, as pedras
aquecidas e o mar, no quis mais retornar  escurido infernal. Os
chamamentos, as iras as advertncias de nada adiantaram. Ainda
por muitos anos ele viveu diante da curva do golfo, do mar
arrebentando e dos sorrisos da terra. Foi necessria uma sentena
dos deuses. Mercrio veio apanhar o atrevido pelo pescoo e,
arrancando-o de suas alegrias, reconduziu-o  fora aos infernos,
onde seu rochedo estava preparado.
J deu para compreender que Ssifo  o heri absurdo. Ele o  tanto
por suas paixes como por seu tormento. O desprezo pelos deuses,
o dio  Morte e a paixo pela vida lhe valeram esse suplcio
indescritvel em que todo o ser se ocupa em no completar nada. 
o preo a pagar pelas paixes deste mundo. Nada nos foi dito sobre
Ssifo nos infernos. Os mitos so feitos para que a imaginao os
anime. Neste caso, v-se apenas todo o esforo de um corpo
estirado para levantar a pedra enorme, rol-la e faz-la subir uma
encosta, tarefa cem vezes recomeada. V-se o rosto crispado, a
face colada  pedra, o socorro de uma espdua que recebe a
massa recoberta de barro, e de um p que a escora, a repetio na
base do brao, a segurana toda humana de duas mos cheias de
terra. Ao final desse esforo imenso, medido pelo espao sem cu e
pelo tempo sem profundidade, o objetivo  atingido. Ssifo, ento, v
a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de
onde ser preciso reergu-la at os cimos. E desce de novo para a
plancie.
 durante esse retorno, essa pausa, que Ssifo me interessa. Um
rosto que pena, assim to perto das pedras,  j ele prprio pedra!
Vejo esse homem redescer, com o passo pesado mas igual, para o
tormento cujo fim no conhecer. Essa hora que  como uma
respirao e que ressurge to certamente quanto sua infelicidade,
essa hora  aquela da conscincia. A cada um desses momentos,
em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos
deuses, ele  superior ao seu destino.  mais forte que seu
rochedo.
Se esse mito  trgico,  que seu heri  consciente. Onde estaria,
de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperana de
ser bem-sucedido? O operrio de hoje trabalha todos os dias de sua
vida nas mesmas tarefas e esse destino no  menos absurdo. Mas
ele s  trgico nos raros momentos em que se torna consciente.
Ssifo, proletrio dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a
extenso de sua condio miservel:  nela que ele pensa
enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento
consome, com a mesma fora, sua vitria. No existe destino que
no se supere pelo desprezo.
Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela tambm
pode se fazer para a alegria. Esta palavra no est demais. Imagino
ainda Ssifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no
comeo. Quando as imagens da terra se mantm muito intensas na
lembrana, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente
pesado, acontece que a tristeza se impe ao corao humano:  a
vitria do rochedo,  o prprio rochedo. O enorme desgosto 
pesado demais para carregar. So nossas noites de Getsmani.
Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas.
Assim, dipo de incio obedece ao destino sem o saber. A partir do
momento em que ele sabe, sua tragdia principia. Mas no mesmo
instante, cego e desesperado, reconhece que o nico lao que o
prende ao mundo  o frescor da mo de uma garota. Uma fala
descomedida ressoa ento: "Apesar de tantas experincias, minha
idade avanada e a grandeza da minha alma me fazem achar que
tudo est bem." O dipo de Sfocles, como o Kirlov de Dostoivski,
d assim a frmula da vitria absurda. A sabedoria antiga torna a se
encontrar com o herosmo moderno.
No se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum
manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas to estreitas?"
No entanto, s existe um mundo. A felicidade e o absurdo so dois
filhos da mesma terra. So inseparveis. O erro seria dizer que a
felicidade nasce forosamente da descoberta absurda. Ocorre do
mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho
que tudo est bem", diz dipo, e essa fala  sagrada. Ela ressoa no
universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo no  e no
foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado
com a insatisfao e o gosto pelas dores inteis. Faz do destino um
assunto do homem e que deve se acertado entre os homens.
Toda a alegria silenciosa de Ssifo est a. Seu destino lhe pertence.
Seu rochedo  sua questo. Da mesma forma o homem absurdo,
quando contempla o seu tormento, faz calar todos os dolos. No
universo subitamente restitudo ao seu silncio, elevam-se as mil
pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e
secretos, convites de todos os rostos, so o reverso necessrio e o
preo da vitria. No existe sol sem sombra, e  preciso conhecer a
noite. O homem absurdo diz sim e seu esforo no acaba mais. Se
h um destino pessoal, no h nenhuma destinao superior ou,
pelo menos, s existe uma, que ele julga fatal e desprezvel. No
mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em
que o homem se volta sobre sua vida, Ssifo, vindo de novo para
seu rochedo, contempla essa seqncia de atos sem nexo que se
torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua
memria e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da
origem toda humana de tudo o que  humano, cego que quer ver e
que sabe que a noite no tem fim, ele est sempre caminhando. O
rochedo continua a rolar.
Deixo Ssifo no sop da montanha! Sempre se reencontra seu
fardo. Mas Ssifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e
levanta os rochedos. Ele tambm acha que tudo est bem. Esse
universo doravante sem senhor no lhe parece nem estril nem ftil.
Cada um dos gros dessa pedra, cada claro mineral dessa
montanha cheia de noite, s para ele forma um mundo. A prpria
luta em direo aos cimos  suficiente para preencher um corao
humano.  preciso imaginar Ssifo feliz.
                           ANEXOxxxii

    A ESPERANA E O ABSURDO NA OBRA DE
               FRANZ KAFKA

Toda a arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler. Seus
desenlaces, ou suas faltas de desenlace, sugerem explicaes, mas
que no so reveladas com clareza e exigem, para nos parecerem
fundadas, que a histria seja relida sob um novo ngulo. s vezes
h uma dupla possibilidade de interpretao, donde aparece a
necessidade de duas leituras.  o que pretendia o autor. Mas no
estaramos certos se quisssemos, em Kafka, interpretar tudo
minuciosamente. Um smbolo est sempre expresso no sentido
geral e, por mais precisa que seja a traduo, um artista s pode
recuperar, atravs dela, o movimento: no h literalidade. Alm
disso, nada  mais difcil de entender do que uma obra simblica.
Um smbolo ultrapassa sempre quem faz uso dele e o leva a dizer
mais, na realidade, do que tem inteno de dizer. Nesse caso, o
meio mais seguro de dominar a situao  no o provocar, principiar
a obra com um esprito no deliberado e no buscar suas correntes
secretas. Particularmente no caso de Kafka,  bom aceitar o seu
jogo, entrar no drama pela aparncia e no romance pela forma.
 primeira vista, e para um leitor descomprometido, so
inquietantes aventuras que levam personagens trmulos e
obstinados  perseguio de problemas que eles jamais enunciam.
Em O processo, Joseph K...  acusado. Mas ele no sabe de qu.
Deve, sem dvida, se defender, mas ignora por qu. Os advogados
acham a causa difcil. Entrementes, ele no negligencia o amor, a
alimentao ou a leitura de seu jornal. Depois,  julgado. Mas a sala
do tribunal  muito escura. Ele no compreende coisa nenhuma.
Supe, apenas, que  condenado, mas mal se pergunta a qu.
Assim como, s vezes, duvida disso e continua a viver. Muito tempo
depois, dois senhores bem trajados e polidos vem procur-lo e o
convidam a segui-los. Com toda cortesia, eles o levam para um
desolado subrbio, colocam-lhe a cabea sobre uma pedra e o
degolam. Antes de morrer, o condenado somente diz: "como um
co".
V-se como  difcil falar de smbolo depois de uma narrativa em
que a qualidade mais sensvel parece ser exatamente o natural.
Mas o natural  uma categoria difcil de compreender. H obras em
que o acontecimento parece natural ao leitor. Mas h outras (mais
raras,  verdade) em que  o personagem que acha natural o que
lhe acontece. Por um paradoxo singular, mas evidente, quanto mais
extraordinrias forem as aventuras do personagem, mais sensvel
se tornar o natural da narrativa:  proporcional  diferena que se
pode sentir entre a estranheza da vida de um homem e a
simplicidade com que este a aceita. Parece que este natural  o de
Kafka. E  por isso que se sente bem o que O processo quer dizer.
Falou-se de uma imagem da condio humana. Sem dvida. Mas 
ao mesmo tempo mais simples e mais complicado. Quero dizer que
o sentido do romance, no caso de Kafka,  mais particular e mais
pessoal. De certa maneira,  ele quem fala,  a ns que ele
confessa. Vive e  condenado. Fica sabendo-o nas primeiras
pginas do romance que leva adiante neste mundo e, se tenta
remedi-lo, no se revela, no entanto surpreso. Ele nunca se
espantar suficientemente com essa falta de espanto.  nessas
contradies que se reconhecem os primeiros sinais da obra
absurda. O esprito projeta no concreto sua tragdia espiritual. E ele
s pode faz-lo atravs de um paradoxo permanente que d s
cores o poder de expressar o vazio e aos gestos cotidianos a fora
de traduzir as ambies eternas.
De igual modo, O castelo talvez seja uma teologia em ao, mas 
antes de tudo a aventura individual de uma alma em busca de sua
graa, de um homem que procura nos objetos deste mundo seu
segredo real, e nas mulheres os signos do deus que dorme nelas. A
metamorfose, por sua vez, representa certamente a terrvel
iconografia de uma tica da lucidez. Mas  tambm o produto desse
assombro inimaginvel que experimenta o homem ao sentir o bicho
que ele, sem esforo, se tornou.  nessa ambigidade fundamental
que est o segredo de Kafka. Essas perptuas oscilaes entre o
natural e o extraordinrio, o indivduo e o universal, o trgico e o
cotidiano, o absurdo e o lgico reaparecem na sua obra inteira e lhe
do ao mesmo tempo sua ressonncia e significado. So esses
paradoxos que  preciso enumerar, so essas contradies que 
preciso ressaltar, para compreender a obra absurda.
Um smbolo, com efeito, pressupe dois planos, dois mundos de
idias e de sensaes, e um dicionrio de correspondncias entre
um e o outro. Esse lxico  que  o mais difcil de se fixar. Mas
tomar conscincia dos dois mundos assim presentes  colocar-se
no caminho de suas relaes secretas. Em Kafka, os dois mundos
so aqueles da vida cotidiana, de um lado, e da inquietao
sobrenatural, do outro.xxxiii Parece que se assiste aqui a uma
interminvel explorao da palavra de Nietzsche: "Os grandes
problemas esto na rua."
H na condio humana -  o lugar-comum de todas as literaturas -
uma absurdidade fundamental, ao mesmo tempo que uma
implacvel grandeza. As duas coincidem, como  natural. Ambas se
apresentam - repitamo-lo - no divrcio ridculo que separa as
nossas intemperanas da alma e as alegrias perecveis do corpo. O
absurdo  que seja a alma desse corpo que o ultrapassa to
desmedidamente. Para quem quiser simbolizar essa absurdidade, 
em um jogo de contrastes paralelos que ser preciso lhe dar vida. 
assim que Kafka exprime a tragdia pelo cotidiano e o absurdo pela
lgica.
Um ator imprime ainda maior fora a um personagem trgico se se
abstm de exager-lo. Se ele  comedido, o horror que suscita ser
descomedido. A tragdia grega, quanto a isso,  rica de
ensinamentos. Numa obra trgica, o destino sempre se faz perceber
melhor sob as faces da lgica e do natural. O destino de dipo 
antecipadamente anunciado. Est sobrenaturalmente decidido que
ele cometer o homicdio e o incesto. Todo o esforo do drama 
mostrar o sistema lgico que, de deduo em deduo, vai
consumar a infelicidade do heri. Anunciar-nos apenas esse destino
inusitado quase no  apavorante, pois  inverossmil. Mas se a
necessidade daquilo nos  demonstrada no quadro da vida
cotidiana, da sociedade, do Estado, da emoo familiar, a o pavor
se consagra. Nessa revolta que sacode o homem e o faz dizer:
"Isso no  possvel" j existe a certeza desesperada de que "isso"
 possvel.
 todo o segredo da tragdia grega ou, pelo menos, um de seus
aspectos, Pois ocorre um outro que, por um mtodo inverso, nos
permitiria uma melhor compreenso de Kafka. O corao humano
tem uma penosa tendncia a chamar destino somente ao que o
esmaga. Mas tambm a felicidade,  sua maneira, no tem razo
de ser, pois  inevitvel. O homem moderno, no entanto, se atribui o
mtodo dela, quando no a desconhece. Haveria muito a dizer, ao
contrrio, sobre os destinos privilegiados da tragdia grega e os
preferidos da lenda que, como Ulisses, no meio das piores
aventuras, se encontram a salvo deles prprios.
Em todo o caso, o que  preciso reter  essa cumplicidade secreta
que une ao trgico o lgico e o cotidiano. Eis a por que Samsa, o
heri de A metamorfose,  um caixeiro-viajante. Eis a por que a
nica coisa que o aborrece na singular aventura que faz dele um
inseto repugnante  que seu patro ficar descontente com sua
ausncia. Crescem-lhe patas e antenas, sua espinha se arca,
pontos brancos se lhe espalham pelo ventre e - no direi que isso
no o surpreende: o efeito seria falho - isso lhe causa uma "leve
chateao". Em sua obra central, O castelo, so os detalhes da vida
cotidiana que voltam  tona e, no entanto, nesse estranho romance
em que nada se conclui e tudo recomea, a aventura essencial que
se configura  a de uma alma em busca de sua graa. Essa
traduo do problema para o ato, essa coincidncia do geral e do
particular, reconhecemos tambm nos pequenos artifcios
peculiares a todo grande criador. Em O processo, o heri teria
podido chamar-se Schmidt ou Franz Kafka. Mas ele se chama
Joseph K... No  Kafka e  ao mesmo tempo.  um europeu
mdio.  como todo o mundo. Mas  tambm a entidade K que
apresenta o x dessa equao de carne.
Da mesma forma, se Kafka quer exprimir o absurdo,  da coerncia
que ele se servir. Conhece-se a histria do louco que pescava
numa banheira: um mdico que tinha suas idias sobre os
tratamentos psiquitricos lhe perguntava "se isso mordia" e recebeu
a resposta rigorosa: "Mas claro que no, seu imbecil, pois se  uma
banheira." Essa histria  do gnero barroco. Mas se capta a, de
maneira sensvel, como o efeito absurdo est ligado a um excesso
de lgica. O mundo de Kafka, na verdade,  um universo
inexprimvel em que o homem se d ao luxo supliciante de pescar
em uma banheira sabendo que nada sair dali.
Reconheo, pois, nesse caso uma obra absurda em seus princpios.
Sobre O processo, por exemplo, posso mesmo dizer que o xito 
total. A carne triunfa. Nada falta ali, nem a revolta inexpressa (e 
ela, porm, que escreve), nem o desespero lcido e mudo (e  ele,
porm, que cria), nem essa assombrosa liberdade de atitude que os
personagens do romance respiram at a morte final.
No entanto, esse mundo no  to fechado quanto parece. Nesse
universo sem progresso, Kafka vai inserir a esperana de uma
forma singular. A esse respeito, O processo e O castelo no tomam
a mesma direo. Eles se completam. A insensvel progresso que
se pode notar de um para o outro representa uma conquista
descomunal na ordem da evaso. O processo apresenta um
problema que O castelo, de certo modo, resolve. O primeiro
descreve, segundo um mtodo quase cientfico, mas sem concluir.
O segundo,  sua maneira, explica. O processo diagnostica e O
castelo imagina um tratamento. Mas o remdio ali proposto no
cura. Ele s faz a doena retornar  vida normal. Ajuda a aceit-la.
Num certo sentido (pensemos em Kierkegaard), ele a leva  cura. O
agrimensor K... no pode imaginar outra preocupao alm da que
o devora. At aqueles que o cercam se apaixonam por esse vazio e
essa dor que no tem nome, como se o sofrimento revestisse assim
um rosto privilegiado. "Como preciso de voc", diz Frieda a K...
"Como me sinto abandonada, desde que o conheo, quando voc
no est junto de mim." Esse remdio sutil, que os faz amar o que
nos esmaga e faz nascer a esperana num mundo sem sada, esse
"salto" brusco pelo qual tudo se acha mudado,  o segredo da
revoluo existencial e do prprio O castelo.
Poucas obras so to rigorosas em seu andamento quanto O
castelo. K...  nomeado agrimensor do castelo e chega  aldeia.
Mas da aldeia ao castelo  impossvel a comunicao. Ao longo de
centenas de pginas, K... se obstinar em achar o seu caminho,
tomar todas as providncias, se far sagaz e ardiloso, jamais se
zangar e, com uma f desconcertante, querer assumir a funo
que lhe foi confiada. Cada captulo  um fracasso. E tambm um
recomeo. No  lgica, mas senso de concatenao. A magnitude
dessa teimosia produz o trgico da obra. Quando K... telefona para
o castelo, so vozes confusas e misturadas, risos vagos ou apelos
longnquos o que ele distingue. Isso basta para alimentar sua
esperana, como esses vagos sinais que aparecem nos cus do
vero, ou essas promessas da tarde que nos trazem uma razo de
viver. Encontra-se aqui o segredo da melancolia peculiar a Kafka. A
mesma, na verdade, que se respira na obra de Proust ou na
paisagem plotiniana: a nostalgia dos parasos perdidos. "Eu fico
muito melanclica", diz Olga, "quando Barnab de manh me diz
que vai ao Castelo: esse trajeto provavelmente intil, esse dia
provavelmente perdido, essa esperana provavelmente v".
"Provavelmente": com esse mesmo toque Kafka envolve sua obra
inteira. Mas nada o explicita, e a procura do eterno  meticulosa. E
esses autmatos inspirados que so os personagens de Kafka nos
passam a prpria imagem do que seramos sem os nossos
divertimentos.xxxiv  inteiramente entregues s humilhaes do
divino.
Em O castelo essa submisso ao cotidiano se torna uma tica. A
grande esperana de K...  conseguir que o Castelo o adote. No
tendo como chegar a isso sozinho, todo o seu esforo  de merecer
essa graa tornando-se um habitante da aldeia e perdendo sua
qualidade de estrangeiro que todo o mundo lhe faz sentir. O que ele
quer  um ofcio, um lar, uma vida de homem normal e so. Est
cansado de sua loucura. Quer ser razovel. Quer se desembaraar
da maldio particular que o torna estrangeiro na aldeia. O episdio
de Frieda, quanto a isso,  significativo. Essa mulher conheceu um
dos funcionrios do castelo e, se ele a faz sua amante,  por causa
de seu passado. Ele extrai dela alguma coisa que o supera - ao
mesmo tempo em que tem conscincia daquilo que a torna para
sempre indigna do castelo. Sonha-se aqui com o amor singular de
Kierkegaard por Regina Olsen. Em certos homens, o fogo da
eternidade que os devora  to grande que eles chegam a queimar
o prprio corao dos que o cercam. O funesto erro que consiste
em dar a Deus o que no  de Deus  tambm o principal assunto
desse episdio de O castelo. Mas, para Kafka, parece muito no ser
um erro.  uma doutrina e um "salto". No existe nada que no seja
de Deus.
Mais significativo ainda  o fato de o agrimensor se desligar de
Frieda e ir para as outras irms Barnabs. Porque a famlia Barnab
 a nica da aldeia que est completamente abandonada pelo
castelo e pela prpria aldeia. Amlia, a irm mais velha, recusou as
propostas indecorosas que lhe fazia um dos funcionrios do castelo.
A maldio imoral que se seguiu eliminou-a para sempre do amor
de Deus. Ser incapaz de perder a honra por Deus  tornar-se
indigno da sua graa. Observa-se um tema familiar  filosofia
existencial: a verdade que contraria a moral  uma coisa que vai
longe. Pois o caminho que o heri de Kafka realiza, o que vai de
Frieda s irms Barnabs  aquele mesmo que vai do amor
confiante  deificao do absurdo. Aqui tambm o pensamento de
Kafka volta a se encontrar com Kierkegaard. No  surpreendente
que o "relato Barnab" se situe no fim do livro. A ltima tentativa do
agrimensor  a de encontrar Deus atravs do que o nega, de
reconhec-lo no segundo as categorias de bondade e de beleza,
mas atrs dos rostos vazios e hediondos de sua indiferena, sua
injustia e seu dio. Esse estrangeiro que solicita ao castelo para
adot-lo est no fim da viagem um pouco mais exilado, pois, desta
vez,  a si prprio que  infiel e que abandona lgica, moral e
verdade espirituais para tentar entrar, rico somente de sua
esperana insensata, no deserto da graa divina.xxxv
A palavra esperana, aqui, no  ridcula. Ao contrrio, quanto mais
trgica  a condio relatada por Kafka, mais rgida e provocante se
torna essa esperana. Quanto mais o O processo 
verdadeiramente absurdo, mais o "salto" exaltado de O castelo se
mostra comovente e ilegtimo. Mas redescobrimos ento, em estado
puro, o paradoxo do pensamento existencial tal como, por exemplo,
 expresso por Kierkegaard: "Deve-se ferir mortalmente a
esperana terrena - s ento  que nos salvamos pela esperana
verdadeiraxxxvi", e que se pode traduzir assim: " preciso ter escrito
O processo para empreender O castelo".
A maior parte dos que falaram de Kafka realmente definiram sua
obra como um grito desesperador em que nenhum recurso 
deixado ao homem. Mas isso requer uma reviso. H esperanas e
esperanas. A obra otimista do Sr. Henry Bordeaux me parece
singularmente desencorajadora. E que nada, ali,  permitido aos
coraes um pouco difceis.xxxvii O pensamento de Malraux, ao
contrrio, se mantm sempre estimulante.xxxviii Mas no dois casos
no se trata nem da mesma esperana nem do mesmo desespero.
Vejo apenas que a prpria obra absurda pode levar  infidelidade
que desejo evitar. A obra que s era a repetio sem perspectiva de
uma condio estril, uma exaltao inteligente do perecvel se
torna agora um bero de iluses. Ela explica, ela d uma forma 
esperana. O criador no pode mais se separar disso. Ela no  o
jogo trgico que devia ser. D um sentido  vida do autor.
 singular, em todo caso, que obras aparentadas na inspirao
como aquelas de Kafka, Kierkegaard ou Chestov, e aquelas - para
ser breve - dos romancistas e filsofos existenciais inteiramente
voltados para o absurdo e suas conseqncias, culminam afinal
nesse enorme grito de esperana.
Eles abraam o Deus que os devora.  pela humildade que a
esperana se introduz. Porque o absurdo dessa existncia lhes
assegura um pouco mais da realidade sobrenatural. Se o caminho
desta vida termina em Deus, h pois uma sada. E a perseverana,
a obstinao com as quais Kierkegaard, Chestov e os heris de
Kafka repetem seus itinerrios so uma garantia singular do poder
entusiasmante dessa certeza.xxxix
Kafka recusa a seu deus a grandeza moral, a evidncia, a bondade,
a coerncia, mas  para melhor se lanar em seus braos. O
absurdo  reconhecido e aceito, o homem se resigna a isso e,
desde esse instante, sabemos que ele no  mais absurdo. Nos
limites da condio humana, que esperana  maior do que aquela
que permite escapar a essa condio? Uma vez mais percebo que
o pensamento existencial, contra a opinio dominante,  composto
de uma esperana desmesurada, aquela mesma que, com o
cristianismo primitivo e a anunciao da boa nova, sublevou o
mundo antigo. Mas nesse salto que caracteriza todo o pensamento
existencial, nessa obstinao, nessa agrimensura de uma divindade
sem superfcie, como no ver a marca de uma lucidez que se
renega? V-se somente que  um orgulho que abdica para se
salvar. Essa renncia seria fecunda. Mas isso no muda aquilo. A
meu ver, no se diminui o valor moral da lucidez declarando-a
estril como todo orgulho. Porque tambm uma verdade, por sua
prpria definio,  estril. Todas as evidncias o so. Em um
mundo em que tudo se d e nada se explica, a fecundidade de um
valor ou de uma metafsica  uma noo vazia de sentido.
Seja como for, v-se aqui em que tradio de pensamento se
inscreve a obra de Kafka. De fato, no seria inteligente considerar
rigorosos os passos que levam de O processo a O castelo. Joseph
K... e o agrimensor K... so apenas os dois plos que atraem
Kafka.xl Falarei com ele e direi que sua obra provavelmente no 
absurda. Mas isso no nos impede de ver sua grandeza e sua
universalidade. Elas provm de ele ter sabido representar com tanta
amplitude essa passagem cotidiana da esperana para o desgosto
e da prudncia desesperada para a cegueira voluntria. Sua obra 
universal (uma obra efetivamente absurda no  universal), no
sentido de que representa nela a face comovedora do homem que
foge da humanidade e destila em suas contradies razes de crer,
razes de esperar em seus fecundos desesperos, chamando de
vida o seu terrvel aprendizado da morte. Ela  universal porque de
inspirao religiosa Como em todas as religies, o homem se livra,
a, do peso de sua prpria vida. Mas se fico sabendo disso, se
posso tambm admir-lo, sei tambm que no procuro o que 
universal, mas o que  verdadeiro. Os dois podem no coincidir.
Entenderemos melhor essa maneira de ver se digo que o
pensamento verdadeiramente desesperador se define precisamente
pelos critrios opostos, e que a obra trgica, uma vez exilada toda a
esperana futura, poderia ser aquela que descreve a vida de um
homem feliz. Quanto mais apaixonante  a vida, mais absurda  a
idia de perd-la. Talvez esteja nisso o segredo dessa aridez
soberba que se respira na obra de Nietzsche. Nessa ordem de
idias, Nietzsche parece ser o nico artista a ter chegado s ltimas
conseqncias de uma esttica do Absurdo, visto que sua
mensagem final reside em uma lucidez estril e conquistadora, e
numa negao obstinada de toda consolao sobrenatural.
O que acima examinamos ter sido suficiente, no entanto, para
mostrar a importncia capital da obra de Kafka no panorama deste
ensaio.  aos confins do pensamento humano que somos agora
transportados. Dando  palavra seu sentido pleno, pode-se dizer
que nessa obra tudo  essencial. Ela apresenta, alm do mais, o
problema absurdo em todos os seus aspectos. Se quisermos, pois,
reunir essas concluses a nossas observaes iniciais, o fundo da
forma, o secreto senso em O castelo da arte natural em que se
passa, a busca apaixonada e orgulhosa de K... do cenrio cotidiano
em que caminha, compreenderemos o que pode ser sua grandeza.
Porque, se a nostalgia  a marca do humano, talvez ningum tenha
dado tanto relevo e carne a esses fantasmas do arrependimento.
Mas ao mesmo tempo se perceber qual a singular grandeza que a
obra absurda exige e que talvez no se encontre ali. Se for prprio
da arte ligar o geral ao particular, a eternidade perecvel de uma
gota de gua aos jogos de suas luzes,  mais verdadeiro ainda
avaliar a grandeza do escritor absurdo na separao que ele sabe
interpor entre os dois mundos. Seu segredo  o de saber achar o
ponto exato em que eles se tornam a juntar em sua maior
desproporo.
E para dizer a verdade, os coraes puros sabem ver em toda parte
o lugar geomtrico do homem e do inumano. Se Fausto e Don
Quixote so eminentes criaes da arte,  graas s grandezas
ilimitadas que eles nos mostram com as mos terrenas. No entanto,
h sempre aquele momento em que o esprito nega as verdades
que essas mos podem tocar. Sempre aquele momento em que a
criao no  mais elevada ao trgico:  apenas levada a srio. O
homem, ento, se ocupa de esperana. Mas no  sua tarefa. Sua
tarefa  se desviar do subterfgio. Ora,  ele que reencontro no fim
do veemente processo que Kafka instaura contra o universo inteiro.
Seu veredicto inacreditvel absolve, para terminar, esse mundo
hediondo e desconcertante em que as prprias toupeiras se
atrevem a esperar.xli
Notas
i Com o desenvolvimento da psicanlise, a expresso mal d'esprit poderia
equivaler, em portugus dos nossos dias, a "doena (ou problema) emocional".
Optamos por "doena do esprito" pela amplitude que lhe confere o autor e por
adequao ao contexto histrico e cultural da obra. Traduzir, a nosso ver, no deve
autorizar a atualizao de conceitos. (N. do T.)
ii No deixemos passar a oportunidade de assinalar o carter desse ensaio. O
suicdio pode, de fato, estar ligado a consideraes muito mais honrosas. Por
exemplo: os suicdios polticos ditos de protesto na revoluo chinesa. [A edio
original de O Mito de Ssifo  de 1942: o autor, portanto, certamente ainda no
tivera conhecimento do fenmeno Kamikase, que lhe despertaria a ateno para
outros, anlogos, na civilizao japonesa. Sua nota, porm, antecipa a
considerao do auto-sacrifcio dos bonzos na antiga Saigon, hoje Ho Chi Minh,
durante a guerra do Vietn (N. do T.)]
iii Ouvi falar de um rival de Peregrinos, escritor do ps-guerra que, depois de
terminar o primeiro livro, suicidou-se com o intuito de atrair ateno para a sua
obra. A ateno realmente foi atrada, mas o livro foi considerado ruim.
iv Mas no no sentido estrito. No se trata de uma definio, trata-se de uma
enumerao dos sentimentos que podem comportar o absurdo. Acabada a
enumerao, no se ter, porm, esgotado o absurdo.
v Camus, evidentemente, se refere a Sartre, que publicara h poucos anos, em
1938, La nause (A nusea), um de seus primeiros livros - e dos mais
caractersticos de sua contribuio (N. do T.)
vi Evidentemente em ingls no original. Pode-se traduzir por "O tempo est fora do
lugar", Shakespeare, Hamlet, Ato I, Cena V, 188. (N. do T.)
vii A respeito da noo de exceo especialmente, e contra Aristteles.
viii Pode-se pensar que negligencio, aqui, o problema essencial que  o da f. Mas
no estou analisando a filosofia de Kierkegaard ou de Chestov ou, mais adiante, de
Husserl (seria preciso um outro lugar e uma outra atitude de esprito): eu Lhes
tomo emprestado um tema e examino se suas conseqncias podem convir s
regras j fixadas.  s uma questo de tenacidade.
ix "Eu no disse "exclui Deus", o que ainda seria afirmar.
x Esclareamos uma vez mais: no  a afirmao de Deus que est sendo
considerada agora, mas a lgica que leva a ela.
xi At as epistemologias mais rigorosas admitem metafsicas. De tal maneira que a
metafsica de uma grande parte dos pensadores atuais consiste em ter apenas
uma epistemologia.
xii Nessa poca, era preciso que a razo se adaptasse ou morresse Ela se adapta.
Com Plotino, ela de lgica passa a esttica. A metfora substitui o silogismo. Alis,
no  a nica contribuio de Plotino  fenomenologia. Toda essa atitude j est
contida na idia, to cara ao pensador alexandrino, de que no h somente uma
idia do homem, mas tambm uma idia de Scrates.
xiii Trata-se realmente de uma comparao, no de uma apologia da humildade. O
homem absurdo  o contrrio do homem reconciliado.
xiv De vez em quando, a quantidade faz a qualidade. Se acredito, a esse respeito,
nos ltimos assentamentos da teoria cientfica, toda a matria  constituda de
centros de energia. Sua quantidade maior ou menor faz ser mais ou menos
singular a sua especificidade. Um bilho de ons e um on diferem no apenas em
quantidade mas tambm em qualidade. A analogia com a experincia humana 
fcil de reconhecer.
xv A mesma reflexo sobre uma noo to diferente quanto a idia do nada. Ela
no acrescenta nem subtrai nada ao real. Na experincia psicolgica do nada,  na
considerao do que acontecer dentro de dois mil anos que nosso prprio nada
adquire verdadeiramente seu sentido. Sob um de seus aspectos, o nada  feito
exatamente da soma das vidas que ainda vm e no sero as nossas.
xvi A vontade, aqui,  apenas o agente. Ela tende a manter a conscincia e
fornece uma disciplina de vida. Isso  aprecivel.
xvii O que importa  a coerncia. Aqui se parte de um consentimento para com o
mundo. Mas o pensamento oriental ensina que podemos nos entregar ao mesmo
esforo de lgica escolhendo contra o mundo. Isso tambm  legtimo e d a este
ensaio sua perspectiva e seus limites. Mas, quando a negao do mundo se
exerce com o mesmo rigor, chega-se com freqncia (em certas escolas vedantas)
a resultados semelhantes no que diz respeito, por exemplo,  indiferena das
obras. Em um livro de grande importncia, A escolha, Jean Grenier funda, de certo
modo, uma verdadeira "filosofia da indiferena".
xviii Madame Roland (1754-93) era a mulher do poltico francs - girondino - Jean-
Marie Roland de la Platire (1734-93) e influa decisivamente na carreira do marido
atravs do salo que mantinha na rue Gungaud, onde recebia os girondinos.
Com a perseguio a estes, ela foi executada. O marido, que chegara a ministro do
Interior e se refugiara na Normandia, ao receber a notcia se suicidou. (N. do T.).
xix Tirso de Molina (1584-1648) dramaturgo e religioso espanhol, o primeiro a fixar
em pea teatral as aventuras do lendrio Don Juan. El burlador de Sevilla y
convidado de piedra, at hoje uma das melhores verses do tema, foi escrita por
volta de 1630. (N. do T.)
xx Oscar Vladislas de Lubicz-Milosz (1877-1935), escritor bielo-russo de expresso
francesa e tendncias msticas.  autor, entre muitas outras obras, da pea Miguel
Maara, a que Camus se refere. (N. do T.)
xxi No sentido pleno e com os seus defeitos. Uma atitude s tambm compreende
defeitos.
xxii Penso aqui no Alceste de Molire. Tudo  to simples, to evidente e
grosseiro. Alceste contra Filinto, Celimena contra Elianta, a causa toda na absurda
conseqncia de um carter impelido para o seu fim, e o prprio verso o "mau
verso", mal escondido como a monotonia do carter.
xxiii  curioso ver que a mais intelectual das pinturas, a que procura reduzir a
realidade a seus elementos essenciais, no passa, em ltima anlise, de uma
alegria para os olhos. Ela s reteve do mundo a cor.
xxiv Que se reflita nesse ponto: isso explica os piores romances. Quase todo o
mundo se cr capaz de pensar e de certo modo, mal ou bem, realmente pensa.
Muito poucos, ao contrrio, podem se imaginar poeta ou inventor de frases. Mas, a
partir do momento em que o pensamento prevaleceu sobre o estilo, a multido
invadiu o romance. Isso no  um mal to grande quanto se diz. Os melhores so
levados a maior exigncia para consigo mesmos. Quanto aos que sucumbem, no
mereciam sobreviver.
xxv A de Malraux, por exemplo. Mas teria sido preciso tratar ao mesmo tempo do
problema social, que de fato no pode ser evitado pelo pensamento absurdo (se
bem que este lhe possa propor diversas solues, e bastante diferentes). No
entanto, os limites so necessrios.
xxvi "Stavrguin: - Voc acredita na vida eterna no outro mundo? Kirlov: - No, na
vida eterna neste aqui".
xxvii "O homem s resolveu inventar Deus para no se matar. Eis a o resumo da
histria universal at o momento".
xxviii Bris de Schloezer.
xxix Observao curiosa e penetrante de Gide: todos os heris de Dostoivski so
polgamos.
xxx O Moby Dick, de Melville, por exemplo.
xxxi O ttulo camusiano encerra, no original francs, um trocadilho excelente e,
como quase todos, intraduzvel: Le mythe de Sisyphe soa precisamente como le
mythe dcisif (o mito decisivo). (N. do T.)
xxxii Na primeira edio de O mito de Ssifo, este estudo sobre Franz Kafka foi
substitudo por um captulo que abordava Dostoivski e o suicdio. Foi publicado,
porm, pela revista L'Arbalte, em 1943. Reencontraremos a, sob um outra
perspectiva, crtica da criao absurda que as pginas sobre Dostoivski j haviam
esboado. (N. do E.)
xxxiii Deve-se notar que com a mesma legitimidade se podem interpretar as obras
de Kafka no sentido de uma crtica social (por exemplo, em O processo). 
provvel, alis, que no haja como escolher. As duas interpretaes so boas. Em
termos absurdos, como vimos, a revolta contra os homens se dirige tambm a
Deus: as grandes revolues so sempre metafsicas.
xxxiv Em O castelo, parece muito que os "divertimentos", no sentido pascaliano,
so representados pelos Ajudantes, que "desviam" K... de sua inquietao. Se
Frieda acaba sendo a amante de um desses ajudantes,  que ela prefere os
cenrios  verdade, a vida cotidiana  angstia partilhada.
xxxv Isso evidentemente s vale para a verso inacabada de O castelo que Kafka
nos deixou. Mas  duvidoso que, nos ltimos captulos, o escritor tenha rompido a
unidade de tom do romance.
xxxvi A pureza do corao.
xxxvii A meno de Camus, de ironia justificadamente meio custica, invectiva o
tradicionalismo e a mediocridade satisfeita de Bordeaux (1870-1963). (N. do T.)
xxxviii No esqueamos, a propsito, que Malraux merece tanto essa distino de
Camus que publicara, em 1937, cinco anos antes de O mito de Ssifo, um romance
com o prprio ttulo de L'espoir (A esperana):  um livro de inconformismo e de
luta, em plena Guerra Civil Espanhola. (N. do T.)
xxxix A nica personagem sem esperana de O castelo  Amlia.  a ela que o
agrimensor se ope com mais violncia.
xl Sobre os dois aspectos do pensamento de Kafka, comparar Nas gals ("A
culpabilidade - entenda-se do homem - nunca deixa dvidas.") e um fragmento de
O castelo - relato de Momus ("A culpabilidade do agrimensor K...  difcil de
provar.")
xli O que  proposto acima , evidentemente, uma interpretao da obra de Kafka.
Mas  justo acrescentar que nada impede de consider-la,  parte de qualquer
interpretao, do ponto de vista puramente esttico. Por exemplo, B. Groethuysen,
em seu notvel prefcio ao Procs, se limita, com mais prudncia do que ns, a
acompanhar as fantasias dolorosas desse que ele chama, de maneira
surpreendente, um dormidor acordado.  o destino - e talvez a grandeza - dessa
obra oferecer tudo e no confirmar nada.
